SOLANGE LOURENÇO GOMES (1947-1982)Paulista
de Campinas, Solange Lourenço Gomes vivia no Rio de Janeiro, onde fez o
curso clássico no Colégio Andrews e começou a estudar Psicologia na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1966. Participou de
grupos de estudo sobre marxismo naquela faculdade e manteve, por algum
tempo, ligações com o PCBR. Em 1968, vinculou-se à Dissidência da
Guanabara, que posteriormente adotaria o nome MR-8, e passou para a
clandestinidade por volta de setembro ou outubro de 1969. Morava com
Daniel Aarão Reis Filho, dirigente daquela organização. Documentos
policiais informam que Solange participou de várias ações armadas entre
1969 e 1970. No final de 1970, foi deslocada para a Bahia. Nos primeiros
dias de março de 1971, depois de participar de uma panfletagem num jogo
de reinauguração do estádio da Fonte Nova, em Salvador, quando ocorreu
uma perigosa correria entre a multidão, Solange teria sofrido um grave
surto psicótico e se apresentado a uma dependência policial, afirmando
ser subversiva e fornecendo informações sobre o MR-8. No ano seguinte,
em 6 de julho, Solange foi julgada pela Justiça Militar, na 2a Auditoria
do Exército, no Rio, quando foi determinada sua internação no manicômio
judiciário pelo prazo mínimo de dois anos. Depois de solta, em 1973,
cursou Medicina e casou-se, em 1980, com Celso Pohlmann Livi. No
requerimento que apresentou à Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos (CEMDP), o marido de Solange informou que ela se
manteve em tratamento psiquiátrico desde que saiu da prisão. Anexou ao
processo uma declaração do psiquiatra, dr. Alberto Quielli Ambrósio,
atestando: “Durante estes anos, pude testemunhar seu enorme esforço para
recuperar-se do grave quadro psiquiátrico, psicótico, consequência de
sua prisão em 1971. As torturas físicas e mentais a que foi submetida
enquanto presa fizeram-na revelar nomes de companheiros de movimentos
políticos, bem como esse ‘depoimento’ no qual se dizia arrependida e
renegava sua militância foi amplamente divulgado em jornais, denegrindo
sua moral enquanto mulher. Estes fatos fizeram-na sentir-se sempre
culpada pela desgraça e morte das pessoas. Ajudada por nossos esforços,
de sua família e do marido, Solange obteve muitas e significativas
melhoras, mas não conseguiu conviver com tantas marcas – insuperáveis – e
continuar viva”. Em 1o de agosto de 1982, Solange atirou-se da janela
de seu apartamento, no terceiro andar da rua Barão da Torre, no Rio,
vindo a falecer no hospital Miguel Couto. Embora a data de sua morte
seja muito posterior ao episódio da prisão e dos maus-tratos sofridos
nos órgãos de segurança do regime militar, a CEMDP considerou comprovado
que o suicídio decorreu dos traumas irreversíveis sofridos em 1971.
LYDA MONTEIRO DA SILVA (1920-1980)Às
13h40 do dia 27 de agosto de 1980, no Rio de Janeiro, Lyda Monteiro da
Silva morreu ao abrir uma carta-bomba. Ela era diretora da Secretaria do
Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e ocupava a
função de secretária da Comissão de Direitos Humanos da entidade. A
correspondência era endereçada ao presidente do Conselho Federal da OAB,
Eduardo Seabra Fagundes. Lyda faleceu no mesmo dia, não resistindo aos
ferimentos causados pelo atentado. Seu enterro, no cemitério São João
Batista, foi presenciado por uma multidão de 4 mil pessoas, consternadas
com a brutalidade do atentado. Na época, ficou absolutamente nítido o
desinteresse do governo militar pela apuração dos fatos, o que fez
crescer a certeza da motivação política do crime. A interpretação mais
plausível do caso foi que o atentado teria sido praticado por militares
insatisfeitos com a abertura política e com a Lei de Anistia aprovada no
ano anterior, e que, ao mesmo tempo estavam interessados em intimidar o
posicionamento combativo da OAB contra o regime.
LILIANA INÉS GOLDEMBERG (1953-1980)Filha
de profi ssionais bem estabelecidos, cursava o segundo ano de
Psicologia na Universidade de Buenos Aires e trabalhava como secretária
no Hospital da Criança da capital argentina quando abandonou a vida
legal em função da militância política. Em 1970, militou nas Fuerzas
Armadas Revolucionarias (FAR) e atuou em Mar del Plata. Em outubro de
1973, com a fusão das FAR com a organização Montoneros, Liliana foi
enviada para Neuquén, no sul do país. De 1974 a 1976, voltou a viver em
Buenos Aires, mas passou para a clandestinidade depois que seu irmão,
Carlos Andrés Goldemberg, foi baleado dentro de um táxi. De 1977 a 1980,
viveu na Espanha, cumprindo tarefas para os Montoneros. Em 1980,
Liliana e seu companheiro, Eduardo Gonzalo Escabosa, codinome “Andrés”,
regressavam à Argentina (a exemplo de muitos montoneros no exílio que
foram engajados numa contraofensiva programada pela organização para
enfrentar a ditadura argentina) quando foram encontrados pelas forças de
repressão brasileira e argentina. Aluízio Palmar, no livro Onde foi que
vocês enterraram nossos mortos?, relata a morte do casal, ocorrida
durante a travessia entre Porto Meira, em Foz do Iguaçu, e Puerto
Iguazú, na margem argentina do rio Paraná: “Foi num sábado, 2 de agosto
de 1980. Lílian, de 27 anos, loura e franzina, e seu companheiro
Eduardo, de 30 anos, embarcaram na lancha Caju IV, pilotada por Antônio
Alves Feitosa, conhecido na região como ‘Tatu’. Antes de atracar no lado
argentino, dois policiais brasileiros que estavam a bordo mandaram o
piloto parar a lancha e apontaram suas armas para o casal. Cercados,
Lílian e Eduardo ainda puderam ver que mais policiais desciam ao
atracadouro, vindos da aduana Argentina. Assim que perceberam ter caído
numa cilada, Lílian e Eduardo se ajoelharam diante de um grupo de
religiosos que estava a bordo e gritaram que eram perseguidos políticos e
preferiam morrer ali a serem torturados. Em seguida abriram um saco
plástico, tiraram os comprimidos e os engoliram bebendo a água barrenta
do rio Paraná. Morreram em trinta segundos, envenenados por uma dose
fortíssima de cianureto”.
MÓNICA SUSANA PINUS DE BINSTOCK (1953-1980)Mónica
Susana integrava o Movimiento Peronista Montoneros, organização de
resistência armada à ditadura militar argentina (1976-1983). Em 12 de
março de 1980, ela e Horacio Domingo Campiglia, também montonero,
voltavam do exílio para a Argentina. Usando passaportes falsos, haviam
saído da Cidade do México na véspera, num voo da empresa aérea
venezuelana Viasa, que fazia conexão em Caracas com um voo da Varig rumo
ao Rio de Janeiro. Na capital fl uminense, no aeroporto do Galeão,
foram sequestrados. Mónica era casada com Edgardo Ignacio Binstock, com
quem teve dois filhos. Edgardo aguardava a mulher no Rio de Janeiro.
Desde 2005, ele é o secretário de Direitos Humanos da Província de
Buenos Aires. As denúncias do sequestro, registradas nos requerimentos
apresentados à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
(CEMDP) e amplamente divulgadas pela imprensa nacional e argentina a
partir de então, foram comprovadas em 2002, quando o Ministério de
Justiça e Direitos Humanos argentino recebeu, do Departamento de Estado
dos EUA, farta documentação sobre violações dos direitos humanos
cometidas pelo Estado argentino entre 1975 e 1984. Integrantes do
Batalhão 601 fizeram então contato com seu colega da inteligência
militar brasileira, solicitando permissão para realizar uma operação no
Rio de Janeiro. O Brasil a concedeu, e uma equipe especial de agentes
argentinos, sob o comando operacional do tenente-coronel Román, viajou
para a cidade em um C-130 da Força Aérea Argentina. Os dois militantes
foram capturados com vida e levados para a Argentina. Tentando não
alertar os Montoneros sobre a operação realizada no Brasil, os
argentinos responsáveis pela prisão clandestina ainda cuidaram de
hospedar um casal de argentinos num hotel, registrando-os com os
documentos falsos de Mónica e Horacio, o que terminou deixando rastros
de seu desembarque no Brasil. O memorando conclui afirmando que os dois
estavam presos no Campo de Mayo, centro clandestino da repressão
argentina.
THEREZINHA VIANA DE ASSIS (1941-1978)Therezinha
estudou em Aracaju, sua cidade natal, e concluiu o curso de Economia na
Universidade Federal de Sergipe. Mudou-se então para Belo Horizonte,
onde trabalhou na Caixa Econômica Federal. Foi presa e torturada em 1972
e, ao ser libertada um ano depois, exilou-se no Chile, onde fez curso
de especialização na Universidade de Santiago. Lá, tornou-se militante
do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Ao sair do Brasil,
teria utilizado o nome erezinha Viana de Jesus, que consta de algumas
das listas de mortos e desaparecidos políticos. As referências acerca de
seu engajamento político no Brasil são imprecisas, mas foi anexado ao
processo na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
(CEMDP) um depoimento em que Gilberto Fernandes Gomes de Faria afi rma
taxativamente que Therezinha pertencia à AP em 1969, enquanto ele atuava
na Corrente, organização que mais tarde se incorporaria à ALN. Assim
como aconteceu com inúmeros outros militantes das organizações
clandestinas, é possível que ela tenha tido mais de um engajamento
partidário, conforme atesta um documento anexado por seu irmão ao
processo. Em setembro de 1973, após o golpe militar no Chile comandado
por Augusto Pinochet, erezinha viajou para a Holanda. Morou inicialmente
em Roterdã e depois em Amsterdã, onde prosseguiu seus estudos,
doutorando-se em Economia. Até 15 de setembro de 1977, Therezinha
trabalhou na prefeitura local, mas seu contrato não foi renovado. O
desemprego agravou os problemas psicológicos que vinha apresentando. Sua
irmã, Selma Viana de Assis Pamplona, escreveu sobre ela: Em meados de
1977, Therezinha começou a me escrever, dizendo estar se sentindo
seguida, pois, onde estava, via as mesmas duas ou quatro pessoas; em
julho de 1977, saiu de férias da Prefeitura e fez curso de línguas;
viajou pela Rússia e países da Europa Oriental e, onde chegava,
encontrava as mesmas pessoas. Quando voltou da viagem, encontrou seu
apartamento todo remexido, desarrumado. Observou que seu telefone estava
“grampeado” e pedia que eu não lhe telefonasse. Às vezes, quando
voltava do serviço, encontrava seu apartamento remexido, demonstrando
ter entrado gente; começou a receber telefonemas anônimos com ameaças.
Foi ficando nervosa e preocupada [...]. Por fim, apareceu morta, caída
da janela. Ocorre que ela era muito católica, tinha medo da morte. E,
antes de se sentir seguida, estava gostando muito de Amsterdã. De
repente, ela ficou sabendo que se tratava da polícia secreta do Chile.
Quanto aos outros, não chegou a saber. Morreu em fevereiro de 1978, com
36 anos de idade. Documentos juntados ao processo da CEMDP, como a
certidão com informações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e
cópias de páginas do Dossiê dos Mortos e Desaparecidos, comprovam sua
militância política.
MARIA AUXILIADORA LARA BARCELLOS (1945-1976)Em
1o de junho de 1976, Maria Auxiliadora atirou-se nos trilhos de trem da
estação de metrô Charlottenburg, em Berlim Ocidental, na Alemanha, e
teve morte instantânea. Conhecida pelos amigos como Dora ou Dorinha, ela
havia sido presa sete anos antes, no dia 21 de novembro de 1969,
juntamente com seus companheiros da VAR-Palmares Antônio Roberto
Espinoza e Chael Charles Schreier, na casa em que moravam no bairro do
Méier, no Rio de Janeiro. Os três foram torturados no quartel da Polícia
do Exército, na Vila Militar. Chael foi morto em menos de 24 horas.
Vítima de cruéis torturas, Dora passou pelos presídios de Bangu, no Rio
de Janeiro, e Linhares, em Juiz de Fora (MG). Foi banida e enviada para o
Chile com outros 69 presos políticos em 13 de janeiro de 1971, no
episódio do sequestro do embaixador suíço no Brasil. Nunca mais
conseguiu se recuperar plenamente das profundas marcas psíquicas
deixadas pelas sevícias e violências de todo tipo a que foi submetida.
Durante o exílio, registrou, num texto com tons literários, suas
difíceis memórias: “Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram,
cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos
mais íntimos. Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos
sufocados, um grito no escuro”. Veja
o depoimento de Maria auxiliadora no documentário A Report on Torture
(1971) que ela gravou no Chile com outros prisioneiros políticos.
ZULEIKA ANGEL JONES (1923-1976)“Se
algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente,
assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do
meu amado fi lho.” O trecho da carta escrita em 23 de abril de 1975 pela
estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, e entregue ao
compositor Chico Buarque e outros amigos, representou uma verdadeira
premonição a respeito de sua morte um ano depois. Zuzu Angel morreu em
14 de abril de 1976 num acidente automobilístico na saída do túnel Dois
Irmãos, no Rio de Janeiro. A suspeita de que o acidente tivesse sido
provocado surgiu imediatamente em todas as pessoas bem informadas sobre o
que era o aparelho de repressão política do regime militar. Mas foi
somente através da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos
Políticos (CEMDP) que se tornou possível elucidar os fatos. Ficou
provado que sua morte foi desdobramento e consequência da morte do
filho, Stuart Edgard Angel Jones, em 1971. Profissional de sucesso –
vestia atrizes como Liza Minnelli e Joan Crawford –, Zuzu transformou o
desaparecimento de Stuart num acontecimento que provocou desgaste
internacional para o regime militar, despertandoa ira dos porões da
ditadura, que passaram a vê-la como ameaça. Buscando incansavelmente o
paradeiro do filho, Zuzu Angel esteve nos Estados Unidos com o senador
Edward Kennedy; furou o cerco da segurança norte-americana e conversou
com o então secretário de Estado Henry Kissinger, em visita ao Brasil;
prestou detalhado depoimento ao historiador Hélio Silva; e escreveu ao
presidente Ernesto Geisel, ao ministro do Exército, Sylvio Frota, ao
cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e à Anistia
Internacional. Em um de seus desfiles, estampou os figurinos com tanques
de guerra e anjos. Em português, a palavra inglesa angel quer dizer
anjo. Quando começou a receber ameaças de morte, alertou os amigos.Zuzu
estava absolutamente sóbria na noite do acidente e, uma semana antes,
tinha feito uma revisão completa em seu carro, que, sem aparente motivo,
desviou-se da estrada e capotou diversas vezes em um barranco. A
análise das fotos e dos laudos periciais, as inúmeras contradições e
omissões encontradas no inquérito e os depoimentos de testemunhas
oculares compuseram uma base robusta para a decisão da CEMDP
reconhecendo a responsabilidade do regime militar por mais essa morte de
opositor político.
NEIDE ALVES DOS SANTOS (1944-1976)Nascida
no Rio de Janeiro, Neide Alves dos Santos era ligada a Hiran de Lima
Pereira, membro do Comitê Central do PCB. Seu nome não constava de
nenhuma lista de mortos e desaparecidos políticos. Foi o trabalho da
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) que
possibilitou elucidar mais uma morte decorrente de torturas aplicadas
pelos órgãos de segurança do regime militar. No início de 1975, quando
estava em curso a Operação Radar, cujo objetivo era aniquilar o PCB,
Neide viajou de São Paulo para a casa de sua irmã, no Rio, e contou que
estava sendo seguida. Poucos dias depois, desapareceu por cinco dias e,
quando retornou, tinha marcas de tortura por todo o corpo. Estava muito
abalada emocionalmente, motivo pelo qual fi cou internada por algum
tempo na Colônia Juliano Moreira para tratamento psiquiátrico. Algum
tempo depois, retornou a São Paulo e novamente foi presa. Documentos do
Dops/SP registram, no entanto, que Neide teria sido internada na noite
de Réveillon. Conforme telex da 28a Delegacia de Polícia, de 31 de
dezembro de 1975, Neide Alves dos Santos, cognome Lúcia, foi atendida no
Hospital Municipal do Tatuapé e apresentava queimaduras. Estranhamente,
a mensagem relata que, com ela, foi apreendido um caderno de anotações
informando que pertencia ao PCB. Outro documento do Dops/SP registra a
comunicação de seu falecimento, às 20h40 do dia 7 de janeiro de 1976.
Num primeiro exame, o relator do processo na Comissão Especial, Paulo
Gustavo Gonet Branco, propôs indeferimento, por considerar que as
condições da morte “não preenchiam os requisitos da Lei”. Luís Francisco
Carvalho Filho pediu vistas e conseguiu determinar que a morte ocorreu
por responsabilidade dos agentes do Estado brasileiro. Em seu voto pelo
deferimento, Luís Francisco enfatizou dois aspectos importantes. O
primeiro era que os registros da Medicina Legal apontam como muito raro o
“suicídio de mulher mediante fogo posto às vestes”.
JANE VANINI (1945-1974)Nascida
em Cáceres, no Mato Grosso, Jane estudou no Colégio Imaculada
Conceição, em sua terra natal, até se mudar para São Paulo, em 1966,
onde cursou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Além de
estudar, também trabalhava no Mappin e na Editora Abril, onde conheceu
Sérgio Capozzi, com quem se casou. Em agosto de 1969, o casal passou a
integrar a ALN, fazendo de sua residência um abrigo para Joaquim Câmara
Ferreira, o Toledo, principal dirigente da ALN após a morte de Carlos
Marighella. Os vizinhos e os amigos o conheciam como tio Nico, pensando
que fosse algum parente. Após uma série de prisões de membros da ALN em
abril de 1970, o casal foi identificado pelos órgãos de segurança do
regime militar. Colegas da Editora Abril ajudaram Capozzi a fugir,
quando a Oban tentou prendê-lo no trabalho. O casal passou a viver na
clandestinidade e seguiu de navio para Montevidéu, capital do Uruguai.
Daquele país vizinho, os dois militantes seguiram para Cuba, onde
participaram de treinamento militar. No país caribenho, Jane trabalhou
na Rádio Havana. Com a cisão ocorrida na ALN, ela passou a integrar o
Molipo e regressou ao Brasil em setembro de 1971. Do chamado Grupo dos
28, que fundou essa nova organização, Jane ficou entre os que
conseguiram sobreviver após a sequência de prisões e mortes imposta pelo
aparelho de repressão entre novembro de 1971 e maio de 1973. Conseguiu
sair do Brasil e refugiou-se no Chile durante o governo de Salvador
Allende (1970-1973), passando a militar no Movimiento de Izquierda
Revolucionaria (MIR). Trabalhou na revista Punto Final até 1973, quando
já tinha se separado de Capozzi e casado com o jornalista chileno José
Carrasco Tapia, conhecido como Pepe Carrasco, dirigente do MIR. Seu novo
nome era Gabriela Hernández. Com o golpe militar que derrubou Salvador
Allende, liderado pelo general Augusto Pinochet (1973-1990), Jane
recusou-se a deixar o Chile e novamente passou à clandestinidade. Foi
morar com Pepe em Concepción, agora sob a identidade de Carmen Carrasco
Tapia. Em 6 de dezembro de 1974, ao meio-dia, Pepe foi preso pela
polícia fascista de Pinochet. Nesse dia, como Pepe não havia voltado,
Jane procurou outros militantes do MIR para saber se tinham alguma
informação. Se ele estivesse vivo, queria tentar resgatá-lo das mãos da
Direção de Inteligência Nacional (Dina), a implacável polícia política
de Pinochet. A ação proposta por ela foi descartada, mas, sentindo a
determinação de Jane, seus companheiros do MIR chegaram a trancá-la num
banheiro para tentar preservar sua vida. Por volta de 22 horas, Pepe
tinha certeza de que Jane já não estaria em casa. Aguentou a tortura por
muitas horas além do prazo combinado. Ela, porém, tinha conseguido
fugir pela janela do banheiro onde havia sido trancada e voltou para
casa, esperando resgatar seu companheiro. Quando a polícia chegou, Jane
resistiu sozinha durante quatro horas. Os agentes policiais, que não
esperavam reação, chegaram a pensar que ali estivessem muitos
guerrilheiros. Pediram reforços, até que Jane foi ferida e presa. Na
casa, ela deixou um bilhete para Pepe com os dizeres: “Perdóname mi
amor, fue un último intento por salvarte”.
ANA ROSA KUCINSKI SILVA (1942-1974)Ana
Rosa Kucinski Silva era professora universitária, formada em Química,
com doutorado em Filosofia. Casada com o físico Wilson Silva, trabalhava
no Instituto de Química da USP. Os dois conciliavam trabalho e estudos
com a militância política na ALN. Ana Rosa estudou Química na
Universidade de São Paulo (USP) durante a efervescência estudantil que
marcou o início da resistência ao regime militar nessa área. Avançou em
seu engajamento político a partir do namoro e do casamento com Wilson.
Em 1966, este tinha organizado com Bernardo Kucinski, seu colega na
Faculdade de Física da USP e irmão de Ana Rosa, uma exposição sobre os
trinta anos da Guerra Civil Espanhola, na rua Maria Antônia. Em 22 de
abril de 1974, Ana Rosa saiu do trabalho, na Cidade Universitária, e foi
ao centro da capital paulista para almoçar com Wilson num dos
restaurantes próximos à praça da República. O casal desapareceu nas
proximidades. Os colegas de Ana Rosa na USP estranharam sua ausência e
avisaram a família Kucinski, que imediatamente começou a tomar
providências para a sua localização. Ao procurarem Wilson, souberam que
ele também havia desaparecido. As duas famílias passaram a viver o
tormento da busca por informações. O ex-agente do DOI-Codi/SP e
ex-sargento Marival Dias Chaves do Canto, também em entrevista à Veja,
em 18/11/1992, informou: “Foi o caso também de Ana Rosa Kucinski e de
seu marido, Wilson Silva. Foram delatados por um cachorro, presos em São
Paulo e levados para a casa de Petrópolis. Acredito que seus corpos
também foram despedaçados”. O relatório do Ministério da Marinha,
enviado em 1993 ao Ministro da Justiça, Maurício Corrêa, confirmou que
Wilson Silva “foi preso em São Paulo em 22/4/1974, e dado como
desaparecido desde então”. Na ficha de Wilson Silva, no arquivo do
Deops, consta que ele foi “preso em 22/4/1974, junto com sua esposa Rosa
Kucinski”.
IEDA SANTOS DELGADO (1945-1974)Carioca
e afrodescendente, Ieda era advogada e, embora militante da ALN,
conseguiu manter a vida em completa legalidade até ser presa em São
Paulo, em 11 de abril de 1974, quando desapareceu. Sua atuação política
teve início entre 1967 e 1968, em Brasília, quando estudava direito na
Universidade de Brasília (UnB) e participava discretamente das
mobilizações estudantis que marcaram o período. Ao mesmo tempo, entre
1967 e 1970, trabalhou no Plano Nacional de Educação como assistente da
assessoria jurídica do Ministério da Educação e Cultura. Formou-se
advogada em 1969 e falava francês, italiano, inglês e espanhol. Em
seguida, Ieda foi estagiária e, depois, assistente jurídica do
Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério de Minas e
Energia. Em 1973, passou a trabalhar como secretária jurídica do Centro
de Pesquisas Experimentais. Ao ser presa, aguardava sua transferência
para Brasília. Como funcionária do Ministério, fez curso de
especialização na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de
Janeiro, de setembro de 1971 a março de 1972. Ieda viajou para São Paulo
durante os feriados da Semana Santa de 1974, no dia 11 de abril, para
buscar passaportes para um casal de militantes da ALN que precisava
deixar o país. Não retornou ao Rio de Janeiro. Por telefonema anônimo,
sua família soube que ela tinha sido presa na capital paulista. Sua mãe,
Eunice, viajou imediatamente para a cidade e iniciou uma busca
desesperada pelo paradeiro da fi lha. Chegou a obter a informação,
através de um general, seu amigo, de que Ieda estivera presa em Campinas
(SP), onde chegou a ser hospitalizada em função das torturas, e também
em Piquete (SP), onde permaneceu por pouco tempo. Tais informações,
oficiosas, nunca foram confirmadas. Os diversos habeas corpus impetrados
foram negados. Um mês depois da prisão da fi lha, Eunice passou a
receber cartas de Ieda, o que a deixou ainda mais aflita. Inicialmente,
em cinco linhas, em correspondência postada em Belo Horizonte, Ieda
dizia para a família não se preocupar, pois estava bem. Um mês depois,
chegou outra carta, nos mesmos termos, postada no Uruguai. A letra, no
entanto, estava muito tremida. Eunice fez exames grafológicos e
constatou que a caligrafia era de Ieda. Nesse período do regime militar,
em que o desaparecimento se tornou regra sistemática nos órgãos de
segurança, repetiram-se várias vezes episódios como esse em que, além do
violento trauma trazido pelo desaparecimento, os familiares passaram a
ser submetidos a verdadeiras operações de contrainformação e, muitas
vezes, foram alvo de chantagem para obtenção de dinheiro em troca de
informações que, em nenhum dos casos, se comprovaram verdadeiras.Fonte: Direito à memória e à verdade : Luta, substantivo feminino Tatiana Merlino. - São Paulo : Editora Caros Amigos, 2010.
Retirado do blog Maria da Penha Neles
SÔNIA MARIA DE MORAES ANGEL JONES (1946-1973)Sônia
Maria era gaúcha de Santiago do Boqueirão e filha de um oficial do
Exército. Morava no Rio de Janeiro e trabalhava como professora de
português quando se casou com Stuart Edgar Angel Jones, militante do
MR-8 – mais tarde, morto sob torturas e procurado incansavelmente pela
mãe, a estilista Zuzu Angel, também morta por ação de agentes do poder
público. Em 1o de maio de 1969, Sônia foi presa quando participava de
manifestação de rua na praça Tiradentes. Foi levada para o Dops e,
posteriormente, para o presídio feminino São Judas Tadeu, sendo
libertada apenas em 6 de agosto daquele ano. Visada pelos órgãos de
segurança depois desse episódio, teve de se manter na clandestinidade.
Em maio de 1970, exilou-se na França, onde passou a estudar na
Universidade de Vincennes. Para se sustentar, lecionava português na
escola de línguas Berlitz, em Paris. Ao saber da prisão e
desaparecimento de Stuart, Sônia decidiu voltar ao Brasil e retomar a
luta de resistência. Ingressou então na ALN e morou algum tempo no
Chile, onde trabalhou como fotógrafa. Posteriormente, em maio de 1973,
retornou clandestinamente ao Brasil, estabelecendo-se em São Paulo e
depois em São Vicente, onde passou a viver com Antônio Carlos Bicalho
Lana. Presos em novembro do mesmo ano, os dois militantes foram
torturados até a morte e enterrados como indigentes no cemitério Dom
Bosco, em Perus, na capital paulista. Em 15 de novembro de 1973, Sônia e
Lana alugaram um apartamento em São Vicente, litoral de São Paulo. O
local passou a ser vigiado por agentes dos órgãos de segurança, que
informaram aos funcionários do condomínio que ali moravam “dois
terroristas muito perigosos”. A data exata da prisão nunca foi
estabelecida, mas sabe-se que era de manhã quando Antônio Carlos e Sônia
pegaram o ônibus da Empresa Zefir com destino a São Paulo. Vários
agentes já estavam dentro do coletivo. Simultaneamente, nas imediações
da agência de passagens do Canal 1, em São Vicente, encontravam-se
outros policiais à espera de que os dois descessem para comprar os
bilhetes, que não eram vendidos no próprio ônibus. Quando lá chegaram,
apenas Lana desceu do ônibus. Cinco agentes esperavam dentro da agência e
outros chegaram em vários carros. No guichê, o militante entrou em luta
corporal com os policiais, mas foi dominado a socos e pontapés, levando
uma coronhada de fuzil na boca. Sônia, ao levantar-se do banco, foi
agarrada e levou um pontapé nas costas. Saiu do ônibus algemada pelos
pés e foi colocada em um Opala, enquanto Lana foi empurrado para outro
carro. Há duas versões para a morte da militante. A primeira, do primo
de seu pai, o coronel Canrobert Lopes da Costa, ex-comandante do DOICodi
de Brasília e amigo pessoal do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra,
comandante do DOI-Codi de São Paulo: “Depois de presa, do DOI-Codi/SP
foi mandada para o DOI-Codi/RJ, onde foi torturada, estuprada com um
cassetete e mandada de volta a São Paulo, já exangue, onde recebeu dois
tiros”. A segunda, do ex-sargento Marival Dias Chaves do Canto, do
DOI-Codi/SP, em entrevista concedida à revista Veja, em 18 de novembro
de 1992: Antônio Carlos e Sônia foram presos no Canal 1, em Santos, onde
não houve qualquer tiroteio, nem ao menos um tiro, “apenas” a violência
dos agentes de segurança que conseguiram imobilizar o casal aos socos,
pontapés e coronhadas. [...] Eles foram torturados e assassinados com
tiros no tórax, cabeça e ouvido. [...] Foram levados para uma casa de
tortura, na zona sul de São Paulo, onde ficaram de cinco a dez dias até a
morte, em 30 de novembro. Depois disso, seus corpos foram colocados na
porta do DOI-Codi, para servir de exemplo, antes da montagem do
teatrinho. Ao tomar conhecimento da morte da fi lha pelos jornais, os
pais de Sônia foram para São Vicente. No apartamento, encontraram cinco
agentes dos órgãos de segurança. O pai da militante foi esbofeteado e
ameaçado de ser jogado do terceiro andar do prédio. Identificou-se como
tenente-coronel e conseguiu ser libertado, com a promessa de permanecer
em São Paulo, à disposição do II Exército. João Moraes guardava o
presente como uma relíquia, achando que a crueldade dos porões do regime
militar chegara ao ponto de ser aquele o instrumento que matara a
filha. Depois de muito relutar em acreditar que Sônia não fora morta no
tiroteio informado pelos militares, João Moraes tornou-se uma liderança
entre os familiares de mortos e desaparecidos políticos. Foi presidente
do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, enquanto sua esposa, Cléa, foi
secretária da mesma entidade por muitos anos. Antes de morrer, ele
publicou o livro O calvário de Sônia: uma história de terror nos porões
da ditadura, que registra a história da vida e morte de sua fi lha, bem
como a dolorosa peregrinação que ele e sua esposa realizaram na busca do
corpo e do esclarecimento completo de sua morte sob torturas. Em 19 de
setembro de 1992, na gestão de Luiza Erundina como prefeita de São
Paulo, foi inaugurado o complexo viário João Dias – nas proximidades da
praça Alceu Amoroso Lima e da marginal do rio Pinheiros –, formado por
três grandes viadutos. Um deles foi batizado com o nome de Sônia Maria
de Moraes Angel Jones.
RANÚSIA ALVES RODRIGUES (1945-1973)Ranúsia
e outros três militantes do PCBR (Almir Custódio de Lima, Ramires
Maranhão do Valle e Vitorino Alves Moitinho) foram mortos pelos órgãos
de segurança do regime militar em 27 de outubro de 1973, no Rio de
Janeiro. A cena para a legalização das execuções foi montada na praça
Sentinela, em Jacarepaguá. Ramires, Almir e Vitorino aparecem totalmente
carbonizados dentro de um Volkswagen, enquanto o corpo de Ranúsia jaz
baleado, embora não queimado. Os documentos oficiais dos arquivos dos
Ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica mostram versões
desencontradas de tal acontecimento. Alguns fatos só começaram a ser
esclarecidos com a abertura dos arquivos secretos do Dops, no Rio de
Janeiro, São Paulo e Pernambuco. No livro Dos fi lhos deste solo,
Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio assim registraram o episódio: Chovia
na noite de 27 de outubro de 1973, um sábado. Alguns poucos casais
escondiam-se da chuva junto do muro do Colégio de Jacarepaguá, no Rio.
Por volta das 22 horas, um homem desceu de um Opala e avisou:
“Afastem-se porque a barra vai pesar”. O repórter de Veja (7/11/1973)
localizou alguém que testemunhou o significado desse aviso: “Não ouvimos
um gemido, só os tiros, o estrondo e a correria dos carros”. [...]
Vindos de todas as ruas que levam à praça, oito ou nove carros foram
chegando, cercando um fusca vermelho de placa AA 6960 e despejando
tiros. Depois jogaram uma bomba dentro do carro. No final, havia uma
mulher morta com quatro tiros no rosto e peito e três homens
carbonizados. Essa mulher era Ranúsia Alves Rodrigues, pernambucana de
Garanhuns e estudante de Enfermagem da Universidade Federal de
Pernambuco. Já havia sido presa uma vez, em Ibiúna (SP), em 1968, quando
participava do 30o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em
consequência disso, foi expulsa da universidade pelo Decreto 477, no
ano seguinte. Vivendo na clandestinidade como militante do PCBR, Ranúsia
teve uma filha, chamada Vanúsia. Em outubro de 1972, passou a atuar no
Rio de Janeiro. Documentos dos órgãos de segurança do regime militar
sustentavam que, em 25 de fevereiro de 1973, ela teria participado da
execução do delegado Octávio Gonçalves Moreira Júnior, do DOICodi/ SP,
em Copacabana. O relatório fala, ainda, de farta documentação encontrada
com ela, e menciona a morte dos quatro militantes, dando-lhes os nomes
completos. A versão divulgada pelo Dops é que os militantes do PCBR
perceberam a presença de “elementos suspeitos” e tentaram fugir,
acionando suas armas. Como o carro teria começado a pegar fogo, não foi
possível retirar as pessoas que estavam dentro. Laudo e fotos da perícia
no local mostram Ranúsia morta perto do carro, tendo, ao fundo, um
Volkswagen incendiado, onde estavam carbonizados Ramires, Vitorino e
Almir. No entanto, a investigação sobre o caso realizada pela Comissão
Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) considerou que a
versão oficial não se sustentava após o exame das provas anexadas ao
processo.
MARIA AUGUSTA THOMAZ (1947-1973)Em
maio de 1973, os militantes do Molipo Maria Augusta Thomaz e Márcio
Beck Machado foram mortos no sul de Goiás, na fazenda Rio Doce, entre
Rio Verde e Jataí, a 240 km de Goiânia. Maria Augusta tinha sido
estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae,
em São Paulo. Em 1968, foi indiciada em inquérito por sua participação
no 30o Congresso da UNE, realizado em Ibiúna (SP). Após a morte de seu
namorado, José Wilson Lessa Sabag, em setembro de 1969, ela teve de
passar para a clandestinidade. Em seguida, foi identificada como
participante do sequestro de um avião da Varig, em 4 de novembro do
mesmo ano, desviado para Cuba durante a rota Buenos Aires-Santiago. Em
Cuba, depois de receber treinamento militar, alinhou-se ao grupo
dissidente da ALN que ficou conhecido como Grupo dos 28, depois Molipo, e
foi uma das primeiras integrantes dessa organização a retornar ao
Brasil, no início de 1971. Embora um documento dos órgãos de segurança,
encaminhado em 1978 ao delegado Romeu Tuma, diretor do Dops, registrasse
claramente a informação sobre as mortes de Márcio e Maria Augusta, as
autoridades do regime ditatorial jamais comunicaram tal fato aos
familiares. No Boletim Informativo do Ministério do Exército datado de
janeiro de 1976, os nomes dos dois foram retirados da lista de
procurados por serem considerados mortos.
ANATÁLIA DE SOUZA MELO ALVES (1945-1973)Anatália
de Souza Melo Alves concluiu o científi co no colégio estadual de
Mossoró (RN), cidade onde residiu até novembro de 1968, quando se casou
com Luiz Alves Neto. Até essa época, havia trabalhado na Cooperativa de
Consumo Popular e morado num conjunto populardo Fundo de Apoio à
População de Sub-Habitação Urbana (Fundap). Militantes do PCBR, Anatália
e Luiz mudaram-se para o Recife após a decretação do AI-5, quando
passaram a desenvolver trabalho político com os trabalhadores rurais da
Zona da Mata de Pernambuco.Viveram também em Campina Grande (PB),
Palmeira dos Índios (AL) e Gravatá (PE), onde foram localizados por
agentes do DOI-Codi. Segundo informação policial, às 17h20 do dia 22 de
janeiro de 1973, enquanto tomava banho sob a vigilância do agente
policial Artur Falcão Dizeu, Anatália teria ateado fogo ao corpo e se
suicidado com uma tira de couro. Entretanto, pelo que pode ser
constatado nas fotos do laudo do Instituto de Polícia Técnica (IPT) de
Pernambuco, Anatália colocou fogo apenas em seus órgãos genitais. No
livro Dos filhos deste solo, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio
escrevem: “A versão de suicídio não convenceu os presos políticos da
época. As queimaduras, inexplicadas, levaram-nos à suspeita de que
Anatália teria sido vítima de violências sexuais, quando se encontrava
psicologicamente abalada pelas torturas e pelo clima de terror nos
cárceres de Pernambuco. Sua morte e as queimaduras na região pubiana
seriam uma forma de impedir que ela denunciasse os responsáveis pelas
sevícias”.
PAULINE PHILIPE REICHSTUL (1947-1973)Filha
de judeus poloneses, Pauline Reichstul nasceu em Praga (na então
Tchecoslováquia), em 1947. Seus pais eram sobreviventes da Segunda
Guerra e casaram-se depois de encerrado o conflito. Quando a menina
tinha dezoito meses, a família mudou-se para Paris, onde viveu até 1955,
voltando então a imigrar, agora para o Brasil. Com 8 anos de idade,
Pauline foi estudar no Liceu Pasteur, em São Paulo. Viveu também em
Israel, por um ano e meio, onde trabalhou e estudou. Depois de curtos
períodos na Dinamarca e na França, fixou residência na Suíça, em 1966,
primeiramente em Lausanne e depois em Genebra. Em 1970, Pauline
completou o curso de Psicologia na Universidade de Genebra. Nesse
período, passou a ter contatos com movimentos de estudantes brasileiros
de resistência ao regime militar. Assim, passou a trabalhar com vários
órgãos de divulgação na Europa, denunciando as violações de direitos
humanos no Brasil, especialmente as torturas e mortes de militantes. Foi
esposa de Ladislau Dowbor, dirigente da VPR banido do país em junho de
1970 em virtude do sequestro do embaixador alemão no Brasil. Pauline e
mais cinco companheiros da VPR foram mortos no Massacre da Chácara São
Bento, ocorrido entre 7 e 9 de janeiro de 1973 em Paulista (hoje, Abreu e
Lima), na grande Recife. A versão do regime militar era de que as
mortes teriam ocorrido em consequência de um tiroteio. No entanto, a
investigação sobre o caso na Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos (CEMDP) reuniu provas de que, na realidade, os
militantes da VPR foram detidos em lugares distintos e, posteriormente,
torturados.
SOLEDAD BARRETT VIEDMA (1945-1973)Nascida
no Paraguai e tida como mulher de rara beleza, Soledad era neta de um
importante escritor, jornalista e intelectual paraguaio, nascido na
Espanha: Rafael Barrett. Tanto o pai quanto o avô foram perseguidos por
suas ideias políticas. Assim, quando Soledad tinha apenas três meses de
idade, a família fugiu para a Argentina, onde viveu cinco anos; em
quatro dos quais o pai esteve preso ou foi perseguido, tanto pela
polícia paraguaia quanto pela argentina. No Uruguai, de acordo com sua
irmã Namy Barrett, Soledad foi raptada em julho de 1962, aos 17 anos,
por um grupo neonazista, que a colocou em um automóvel e, sob ameaças,
quis obrigá-la a gritar palavras de ordem contrárias às suas ideias. Por
ter se negado, os raptores gravaram em sua carne, com uma navalha, a
cruz gamada, símbolo do nazismo. Começou assim um ciclo de perseguições e
prisões mostrando que, para a polícia uruguaia, Soledad passou de
vítima a culpada. Ela decidiu deixar o país e seguiu para Cuba, onde
conheceu o exilado brasileiro José Maria Ferreira de Araújo – militante
da VPR conhecido como Arariboia ou Ariboia, desaparecido no Brasil em
1970 –, com quem se casou e teve uma filha, Nasaindy de Araújo Barrett.
No Brasil, onde passou a militar pela mesma organização, Soledad foi
morta, juntamente com mais seis companheiros, no chamado Massacre da
Chácara São Bento, ocorrido entre 7 e 9 de janeiro de 1973 em Paulista,
na grande Recife.
LOURDES MARIA WANDERLEY PONTES (1943-1972)Em
17 de janeiro de 1973, os órgãos de segurança do regime militar
tornaram públicas as mortes de seis militantes do PCBR (Lourdes,
Fernando Augusto da Fonseca, Getúlio de Oliveira Cabral, José Bartolomeu
Rodrigues de Souza, José Silton Pinheiro e Valdir Sales Saboia),
ocorridas, segundo a nota oficial, em 29 de dezembro do ano anterior, no
Rio de Janeiro, em função de tiroteios. Na verdade, todos foram mortos
depois de presos. Lourdes Maria era pernambucana de Olinda. Fez o
primário e o ginásio no Recife, mas não chegou a concluir os estudos em
razão de sua militância política a partir de 1968. Em 1969, casou-se com
Paulo Pontes da Silva, com quem se mudou para Natal (RN), fugindo da
repressão política. Novamente perseguido, o casal transferiu-se, em
fevereiro de 1970, para Salvador (BA). No entanto, no mesmo ano, Paulo
foi preso e, posteriormente, condenado à prisão perpétua, por coautoria
no assassinato de um sargento da Aeronáutica que o conduzia algemado.
Após a prisão do marido, Lourdes foi deslocada para a militância
clandestina no Rio de Janeiro. A versão sobre as seis mortes, divulgada
pelo serviço de Relações Públicas do I Exército sob o título “Destruído o
grupo de fogo terrorista do PCBR/GB”, informava que, em ações
simultâneas em pontos diferentes do estado da Guanabara, teriam morrido
os seis militantes, um fi cara ferido, outro escapara ao ser perseguido e
dois teriam sido presos. A verdade completa dos fatos ainda não foi
recuperada, mas ficou comprovado o teatro montado para a falsa versão
oficial, constatada nos próprios documentos oficiais localizados no
Instituto Médico Legal (IML) e no Instituto Carlos Éboli, que realizou
as perícias de local. Para cada uma das vítimas do massacre foi dada uma
versão, mas os corpos dos seis militantes deram entrada no IML às 2h30
do dia 30 de dezembro. Supondo verdadeira a versão ofi cial, o lógico
seria que dessem entrada em horários distintos, já que teriam morrido em
locais distantes e em horários diferentes. O bairro do Grajaú é muito
distante de Bento Ribeiro, mas próximo da sede do DOI-Codi, na rua Barão
de Mesquita. As guias de encaminhamento dos corpos são sequenciais:
Lourdes Maria, no 8; Fernando Augusto, no 9; Valdir, no 10; Getúlio, no
11; José Silton, no 12; e José Bartolomeu, no 13. Todos entraram como
desconhecidos, mesmo Fernando Augusto, que oficialmente estava preso
desde o dia 26. A própria sequência já demonstra que os corpos não foram
levados diretamente do local da morte para o IML. Em Bento Ribeiro,
teria havido violento tiroteio. Segundo a versão oficial, os militantes
teriam usado até granadas de mão. No entanto, as fotos da perícia
técnica desmentem tais informações: o corpo de Lourdes Maria está
encostado na parede, num canto da sala, encolhido atrás de um vaso de
planta que fora usada como árvore de Natal, com as bolas de vidrilho
intactas. Não há nenhuma marca de tiros nas paredes. Lourdes recebeu,
dentre outros, três tiros sequenciais no tórax, característicos de
execução, e um no pulso direito, característico de ferimento decorrente
de uma posição de defesa. Em algumas fotos, Lourdes aparece usando
relógio de pulso e, em outras, no mesmo local, o relógio já não aparece.
Apesar de tantos tiros, não são vistas poças de sangue ao seu redor.
AURORA MARIA NASCIMENTO FURTADO (1946-1972)Estudante
de Psicologia na Universidade de São Paulo, Aurora havia sido
responsável pelo setor de imprensa da União Estadual dos Estudantes de
São Paulo, em 1968. Nesse período, era conhecida como Lola e namorava
José Roberto Arantes de Almeida, dirigente da União Nacional dos
Estudantes (UNE), que seria morto em São Paulo, em 1971, quando militava
no Movimento de Libertação Popular (Molipo). Foi também funcionária do
Banco do Brasil, na agência Brás, capital paulista. Foi presa em 9 de
novembro de 1972, em Parada de Lucas, depois de ser detida numa blitz
policial realizada pelo 2o Setor de Vigilância Norte. Nessa época, era
uma das pessoas mais procuradas da ALN no Rio de Janeiro. Tentando
romper o cerco, teria matado um policial. Após correr alguns metros, foi
aprisionada viva, dentro de um ônibus onde havia se refugiado, e
conduzida imediatamente para a delegacia de Invernada de Olaria. Aurora
foi submetida a pau de arara, sessões de choques elétricos,
espancamentos, afogamentos e queimaduras. Aplicaram-lhe também a coroa
de cristo”, fita de aço que vai sendo apertada gradativamente e aos
poucos esmaga o crânio. Morreu no dia seguinte. Entretanto, seu corpo,
crivado de balas, foi jogado na esquina das ruas Adriano e Magalhães
Couto, no bairro do Méier. A versão oficial divulgada foi de que ela
teria sido morta a tiros durante tentativa de fuga.
ESMERALDINA CARVALHO CUNHA (1922-1972)Esmeraldina
Carvalho Cunha foi encontrada morta na sala de sua casa, em Salvador,
em 20 de outubro de 1972, aos 49 anos. Seu corpo estava pendurado num
fio de máquina elétrica. Esmeraldina fora casada com Tibúrcio Alves
Cunha Filho, com quem teve cinco fi lhas. A mais nova, Nilda Carvalho
Cunha, havia morrido um ano antes, em 14 de novembro de 1971, após dois
meses de prisão e torturas em Salvador. Outra filha, Leônia, foi
militante do PCB e da Polop. Lúcia também chegou a ser presa, mas foi
logo solta. A mais velha, Lourdes, foi cruelmente assediada durante
muito tempo por agentes do Exército, o que lhe causou sérios problemas
emocionais e comportamentais. Esmeraldina, mãe exemplar, separada do
marido, lutava pela vida de suas filhas militantes. A dor pela morte de
sua caçula, Nilda, a transtornou. Mas seu suposto suicídio sempre foi
questionado pela família. Sua filha mais nova fora presa na madrugada de
20 de agosto de 1972. Assim que soube da prisão de Nilda, Esmeraldina
revirou a Bahia. Procurou os comandantes militares, o juiz de menores,
advogados, tentou romper a incomunicabilidade imposta pelo regime. Só
conseguiu ver a filha tempos depois, na Base Aérea de Salvador, quando a
encontrou em estado lastimável, em consequência das torturas.
Esmeraldina enfrentou, por duas vezes, o major Nilton de Albuquerque
Cerqueira, um dos carcereiros da filha. Na primeira vez, o major tentou
impor como condição para a soltura de Nilda que a mãe voltasse a viver
com o ex-marido, fato que não se concretizou e quase impediu a liberdade
da filha. Na segunda vez, o major esteve no quarto de hospital em que
Nilda, já em liberdade, estava internada para tratamento. Sua presença e
as ameaças de fazê-la retornar à prisão agravaram o estado de Nilda,
que morreu dias depois, em circunstâncias nunca esclarecidas. “Ela não
se conformava com a morte da fi lha, chorava, andava pelas ruas da
cidade, delirava e gritava: – Eles mataram minha filha, uma criança!
Eles mataram minha filha. São assassinos, do Exército, do governo. O
relatório da CEMDP constata que a angústia e o desespero pela morte da
fi lha deixaram Esmeraldina inconsolável. Destaca, ainda, o relato da
filha Leônia de que a mãe, um dia antes de morrer, comprara móveis novos
para a casa e, ao encontrá-la dependurada, pudera ver que havia marcas
de sangue no chão, sua face não estava arroxeada, sua língua não estava
para fora, não houvera deslocamento da carótida e mal trazia marca do fi
o no pescoço. A CEMDP considerou que a morte de Esmeraldina Carvalho
Cunha se deu em consequência de seus atos públicos contrários aos
interesses da época, resultantes de seu inconformismo e de seu
conhecimento das atrocidades praticadas por agentes do poder público.
ANA MARIA NACINOVIC CORRÊA (1947-1972)Enquanto
os militantes da ALN Ana Maria Nacinovic Corrêa, Iuri Xavier Pereira,
Marcos Nonato da Fonseca e Antônio Carlos Bicalho Lana almoçavam no
restaurante Varella, no bairro da Mooca, em São Paulo, em 14 de junho de
1972, o proprietário do estabelecimento, Manoel Henrique de Oliveira,
telefonou para a polícia avisando da presença em seu restaurante de
algumas pessoas cujas fotos estavam nos cartazes de terroristas
procurados. Rapidamente, os agentes do DOI-Codi montaram emboscada em
torno do local, mobilizando grande contingente policial. Como resultado
da operação, morreram Ana Maria, Iuri e Marcos Nonato. Antônio Carlos
Bicalho Lana, mesmo ferido, conseguiu escapar e relatou o ocorrido a
seus companheiros. Ana Maria cursou o primário, ginásio e científico no
Colégio São Paulo, mantido por freiras em Ipanema, no Rio de Janeiro.
Terminou o científico com 17 anos e sua inclinação para a matemática
levou-a a frequentar um curso pré-vestibular para Engenharia, plano que
abandonou em função de seu casamento. Ligou-se à ALN no Rio de Janeiro,
mas foi deslocada para o comando regional da organização em São Paulo,
onde participou de inúmeras ações armadas entre 1971 e 1972. Ana Maria
havia sido a única sobrevivente da emboscada armada pelo DOI-Codi/SP em
setembro de 1971, na rua João Moura, em São Paulo, na qual um comando da
ALN caiu. Somente a partir da abertura dos arquivos do Dops/SP
começaram a surgir elementos que colocaram em dúvida a versão de que Ana
Maria, Iuri e Marcos teriam morrido em tiroteio. Não foi possível
reconstituir toda a verdade dos fatos, mas as mortes certamente não
ocorreram no local, conforme a narrativa oficial. O depoimento de uma
testemunha, documentos oficiais localizados e perícias realizadas nos
restos mortais dos militantes derrubaram tal hipótese. A Comissão
Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) apurou que os
três militantes não foram levados diretamente para o Instituto Médico
Legal (IML), e sim à 36a DP, na rua Tutoia, sede do DOI-Codi/SP, em cujo
pátio foram vistos pelo preso político Francisco Carlos de Andrade.
Francisco não conhecia Marcos Nonato, mas reconheceu os corpos de Ana
Maria e Iuri.
Lígia
e Maria Regina foram assassinadas em 29 de março de 1972 no episódio
conhecido como “Chacina de Quintino”, juntamente com outros dois
militantes da VAR-Palmares: Antônio Marcos Pinto de Oliveira e Wilton
Ferreira. Até hoje, as circunstâncias dessas mortes não foram
esclarecidas. A versão dos órgãos de segurança só foi divulgada uma
semana depois, em 6 de abril. As manchetes dos jornais informavam que
nove militantes teriam se entrincheirado na casa 72, na avenida
Suburbana, no 8.695, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro. Em
tiroteio com a polícia, três deles teriam morrido no local (Antônio
Marcos, Lígia Maria e Maria Regina), enquanto os demais teriam
conseguido fugir. Segundo o “Livro Negro” do Exército, essa residência
seria o aparelho onde moravam James Allen da Luz, o principal dirigente
da VAR naquele momento, e Lígia Maria. O número da casa também é
informado em documentos oficiais como sendo 8.988. Lígia Maria, a
terceira de seis irmãos, nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, mas
viveu desde criança em São Paulo. Estudou no Colégio Estadual Fernão
Dias, no bairro de Pinheiros, onde fez o curso normal. Em 1967,
ingressou no curso de Pedagogia da USP, onde se destacou por sua
capacidade intelectual, pela liderança no grêmio local e por buscar
modernizar os métodos de ensino. Trabalhava também como professora. Em
1970, engajou-se nas atividades clandestinas da VAR-Palmares. Os órgãos
de segurança a indicavam como participante da execução de um marinheiro
inglês, David Cuthberg, em 5 de fevereiro de 1972, numa ação que
pretendia simbolizar a solidariedade dos revolucionários brasileiros com
a luta do povo irlandês e com o Exército Republicano Irlandês (IRA).
Foi morta aos 24 anos, quando estava grávida de dois meses. Maria Regina
nasceu no Rio de Janeiro, sendo a quinta dos seis filhos de um médico
pesquisador do Fundação Oswaldo Cruz e de uma assistente social do
Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps).
Fez o primário e o ginásio no Colégio Sacré-Coeur de Jésus e o
científico nos colégios Resende e Aplicação, da Faculdade Nacional de
Filosofia. Formou-se em Pedagogia em 1960 pela Faculdade Nacional de
Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Foi integrante da
Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Juventude Universitária
Católica (JUC) e desenvolveu longo trabalho como educadora na cidade de
Morros, interior do Maranhão, por meio do Movimento de Educação de Base
(MEB), apoiado pela Igreja Católica. Ali, permaneceu entre dois e três
anos. Foi então transferida para Recife, onde conheceu Raimundo
Gonçalves Figueiredo, com quem se casou em 1966. Na época, os dois eram
militantes da AP. Juntos, trabalharam em um projeto da Fundação Nacional
do Índio (Funai) para a educação de índios no Paraná. Após a morte de
Raimundo, em 28 de abril de 1971, Maria Regina voltou ao Rio de Janeiro.
O casal deixou duas filhas: Isabel e Iara, que tinham três e quatro
anos quando a mãe foi morta, aos 33 anos. Consta no “Livro Negro” do
Exército que Maria Regina era a responsável pelo setor de imprensa da
Var-Palmares no Rio de Janeiro, que produzia o jornal União Operária.
Maria Regina foi ferida na perna e, posteriormente, presa pelos agentes
policiais. Sua família, ao receber o corpo, constatou que a perna estava
inchada, o que indica que a militante não havia morrido naquele
momento. A família de Lígia morava em São Paulo quando recebeu a visita
de um agente policial que buscava informações sobre ela, pouco antes de
ver anunciada sua morte em um noticiário na televisão. Lígia foi
reconhecida no IML, em 7 de abril, pelo irmão Francisco, médico, que
comprovou a presença em seu corpo de escoriações e manchas escuras nas
costas e nas regiões laterais do corpo, além de marcas de tiros na
cabeça e no braço.
MIRIAM LOPES VERBENA (1946-1972)Miriam
era casada com Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides, dirigente
nacional do PCBR. Depois das inúmeras prisões que atingiram a
organização no Rio de Janeiro a partir de 1970, vários de seus
integrantes foram deslocados para atuar no Nordeste, entre eles, Luís
Alberto. Miriam, também militante do partido, era professora e, quando
morreu, estava grávida de oito meses. As circunstâncias das mortes dos
dois ainda seguem recobertas de mistério e dúvidas: acidente rodoviário
ou assassinato? A versão oficial é de que faleceram em decorrência de um
acidente de carro, conforme informações encontradas nos arquivos do
Dops/PE. No entanto, um documento da Comissão de Familiares de Mortos e
Desaparecidos Políticos, elaborado por Iara Xavier Pereira após
minuciosa pesquisa, revela que o acidente foi causado pela perseguição
ao casal de militantes.
ÍSIS DIAS DE OLIVEIRA (1941-1972)Ísis
nasceu e cresceu em São Paulo. Iniciou os estudos no Grupo Estadual
Pereira Barreto, fez o ginasial no Colégio Estadual Presidente Roosevelt
e o curso clássico no Colégio Santa Marcelina. Estudou piano e fez
curso de pintura e escultura na Fundação Álvares Penteado. Em 1965,
iniciou o curso de Ciências Sociais na USP e passou a morar no Crusp, o
conjunto residencial da universidade. Trabalhou no Cursinho do Grêmio da
Faculdade de Filosofia e casou-se, em 1967, com José Luiz Del Royo,
também integrante da ALN na fase de sua fundação e, em 2006, eleito
senador na Itália. Ísis frequentou o curso de Ciências Sociais até o
terceiro ano e, segundo informações dos órgãos de segurança, esteve em
Cuba, onde participou de treinamento de guerrilha em 1969. Já separada
de Del Royo, retornou clandestinamente ao Brasil e se estabeleceu no Rio
de Janeiro a partir de meados de 1970. Em 30 de janeiro de 1972, Ísis,
juntamente com Paulo César Botelho Massa, que residia na mesma casa que
ela e também militava na ALN, foi presa pelo DOI-Codi/RJ. No dia 4 de
fevereiro, Aurora Maria Nascimento Furtado, colega de Ísis na USP e na
ALN, que também seria morta sob torturas dez meses depois, telefonou a
Edmundo, pai de Ísis, avisando da prisão da amiga. “Ela corre perigo,
tratem de localizá-la”, disse-lhe. E foi o que tentaram com
persistência: impetraram cinco habeas corpus por meio da advogada Eny
Raimundo Moreira, todos negados. Foram a todas as unidades do Exército,
Marinha e Aeronáutica do Rio de Janeiro e de São Paulo, e onde mais
imaginassem poder ter notícias de Ísis. Vasculharam os arquivos dos
cemitérios do Rio de Janeiro, Caxias, Nilópolis, São João de Meriti,
Nova Iguaçu e São Gonçalo. Sem falar das muitas cartas escritas com a
letra miúda da mãe ao presidente da República, às autoridades civis e
religiosas. Dezenas de pastas guardam os documentos da família na busca
por Ísis. Em matéria do jornal Folha de S.Paulo, publicada em 28 de
janeiro de 1979, um general de destacada posição dentro dos órgãos de
repressão confirmou a morte de Ísis e de Paulo César, dentre outros dez
desaparecidos. No arquivo do Dops/PR, em uma gaveta com a identificação
“falecidos”, foi encontrada a ficha da militante da ALN. A única prova
concreta obtida em todos esses anos de busca foi dada pelo ex-médico
Amílcar Lobo, que servia ao DOI-Codi/RJ e reconheceu a foto de Ísis
dentre os presos que lá atendeu, sem precisar a data, numa entrevista
publicada pela IstoÉ em 8 de abril de 1987. Dona Felícia faleceu em 24
de fevereiro de 2010.
GASTONE LÚCIA DE CARVALHO BELTRÃO (1950-1972)Alagoana
de Coruripe, Gastone manifestou desde jovem preocupação com as
desigualdades sociais. Ainda adolescente, visitava presos comuns,
levando-lhes roupas e alimentos. Estudou nos colégios Imaculada
Conceição e Moreira e Silva, em Maceió, e concluiu o segundo grau no Rio
de Janeiro, Em 1968, de volta a Maceió, Gastone prestou vestibular para
Economia na Universidade Federal de Alagoas, entrando em terceiro
lugar. A partir de então, sua militância política se tornou mais
efetiva, inicialmente na JUC (Juventude Estudantil Católica). Em 1969,
já integrada à ALN, viajou para Cuba, onde recebeu treinamento militar.
Foi localizada e executada em São Paulo pela equipe do delegado Sérgio
Paranhos Fleury, quando tinha retornado ao Brasil havia menos de um mês.
No entanto, a versão oficial, que prevaleceu durante muitos anos,
indicava a morte de Gastone em tiroteio com a polícia. Por solicitação
da CEMDP, o processo de Gastone foi submetido a exame pelo perito
criminal Celso Nenevê. O perito se concentrou em duas lesões, uma na
região cmamária e outra na região frontal. Ampliou a foto da ferida na
região mamária 20 vezes. Abramovitc descrevera a lesão como resultante
de “tangenciamento de projétil de arma de fogo”. Nenevê concluiu que, ao
invés de tiro, tratava-se de uma lesão em fenda, produzida por faca ou
objeto similar. As circunstâncias da morte não puderam ser
restabelecidas com clareza até hoje, mas a CEMDP reconheceu, por decisão
unânime, que Gastone Lúcia Carvalho Beltrão, cujo cadáver mostrava 34
lesões, na maioria tiros, mas também facada, marca de disparo à
queima-roupa, fraturas, ferimentos e equimoses, não morrera no violento
tiroteio alegado pelo Dops e pelos documentos ofi ciais, e sim depois de
presa pelos agentes dos órgãos de segurança.
NILDA CARVALHO CUNHA (1954-1971)Nilda
Carvalho Cunha foi presa na madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971,
Foi levada para o Quartel do Barbalho e, depois, para a Base Aérea de
Salvador. Sua prisão é confirmada no relatório da Operação Pajuçara,
desencadeada para capturar ou eliminar o guerrilheiro Carlos Lamarca e
seu grupo. Nilda foi liberada no início de novembro do mesmo ano,
profundamente debilitada em consequência das torturas sofridas. Morreu
em 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Ela tinha acabado
de completar 17 anos quando foi presa. Fazia o curso secundário e
trabalhava como bancária na época em que passou a militar no MR-8 e a
viver com Jaileno Sampaio. Ela ouvia gritos dos torturados, do próprio
Jaileno, seu companheiro, e se aterrorizava com aquela ameaça de
violência num lugar deserto. Naquele mesmo dia vendaram-lhe os olhos e
ela se viu numa sala diferente quando pôde abri-los. Bem junto dela
estava um cadáver de mulher: era Iara, com uma mancha roxa no peito, e a
obrigaram a tocar naquele corpo frio. No início de novembro, decidem
libertá-la. Na saída, descendo as escadas, ela grita: – Minha mãe, me
segure que estou ficando cega. Foi levada num táxi, chorando,
sentindo-se sufocada, não conseguia respirar. Daí para a frente foi
perdendo o equilíbrio: depressões constantes, cegueiras repentinas, às
vezes um riso desesperado, o olhar perdido. Não dormia, tinha medo de
morrer dormindo, chorava e desmaiava. – Eles me acabaram, repetia sempre
[...].
IARA IAVELBERG (1944-1971)Durante
muito tempo, prevaleceu a versão de que Iara Iavelberg se matou,
disparando contra o próprio coração, para evitar as torturas a que
certamente seria submetida se fosse apanhada viva no apartamento da
Pituba, em Salvador, em 20 de agosto de 1971, onde estava encurralada
pelos órgãos de segurança do regime ditatorial, entre eles, agentes do
DOI-Codi/RJ deslocados para aquele estado na perseguição final a Carlos
Lamarca, morto no mês seguinte. No momento de sua morte, Iara Iavelberg
era uma das pessoas mais procuradas pelos órgãos de repressão política
em todo o país, na medida em que já era conhecida sua relação amorosa
com Lamarca, inimigo número 1 do regime naquela época. Nascida em uma
família judia estabelecida no bairro do Ipiranga, em São Paulo, Iara
Iavelberg sempre foi tida como pessoa muito inteligente e precoce, tendo
interesse por diversificadas áreas da vida cultural, além de ser
valorizada pela sua beleza física. Foi militante da Política Operária
(Polop), da VAR-Palmares e da VPR, tendo ingressado no MR-8 poucos meses
antes de morrer. Na VPR, participou de treinamentos de guerrilha no
Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Na tradição judaica, os suicidas
devem ser enterrados numa quadra específica do cemitério e com os pés –
não a cabeça, como é usual – virados para a lápide. Apenas em 22 de
setembro de 2003, encerrando treze anos de ações judiciais mantidas
pelos familiares, com apoio do advogado e deputado Luiz Eduardo
Greenhalgh, o corpo de Iara foi finalmente exumado e retirado da ala dos
suicidas do Cemitério Israelita de São Paulo. Importantes perguntas não
encontraram ainda uma resposta definitiva: por que não foi realizada a
perícia de local, com fotos da arma utilizada para o suicídio, nem
exames papiloscópicos para comprovar o suicídio? Por que limparam o
pequeno banheiro onde teria se suicidado tão procurada guerrilheira,
antes de tirar as fotos com que se tenta demonstrar o local de suicídio?
Por que o relatório detalhado do que aconteceu em Pituba nunca foi
apresentado?
HELENY FERREIRA TELLES GUARIBA (1941-1971)Paulista
de Bebedouro, Heleny foi casada com Ulisses Telles Guariba, professor
de história na USP, de quem tinha sido colega na Faculdade de Filosofia
da mesma universidade. Tiveram dois filhos. Ela se especializou em
cultura grega, trabalhou em teatro e deu aulas na Escola de Arte
Dramática de São Paulo (EAD). Em 1965, Heleny recebeu uma bolsa de
estudos do Consulado da França em São Paulo, especializando-se na Europa
até 1967. Ao voltar ao Brasil foi contratada pela Prefeitura de Santo
André para dirigir o grupo de teatro da cidade. Em março de 1970, foi
presa pela primeira vez, em Poços de Caldas (MG), por sua militância na
VPR. Heleny foi torturada na Operação Bandeirante (DOI-Codi/SP) pelos
capitães Albernaz e Homero. Ficou internada no Hospital Militar dois
dias, em razão de hemorragia provocada pelos espancamentos, até ser
transferida para o Dops/SP e depois para o Presídio Tiradentes, onde foi
assistida pelo advogado José Carlos Dias, que seria mais tarde
presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e, posteriormente,
ministro da Justiça. Solta em abril de 1971, a militante preparava-se
para deixar o país quando, três meses depois, em 12 de julho, foi presa
no Rio de Janeiro por agentes do DOI-Codi/RJ, juntamente com Paulo de
Tarso Celestino da Silva, da ALN. Seus familiares e advogados fizeram
buscas persistentes por todos os órgãos de segurança. Apesar do silêncio
e da negativa sistemática das autoridades, as provas acerca da prisão e
do desaparecimento dos dois militantes foram sendo coletadas. Inês
Etienne Romeu, em seu relatório de prisão, testemunhou que, durante o
período em que esteve sequestrada no sítio clandestino em Petrópolis
(RJ), conhecido como “Casa da Morte”, ali estiveram, no mês de julho de
1971, dentre outros desaparecidos, Walter Ribeiro Novaes, Paulo de Tarso
e uma moça, que acredita ser Heleny. Lá, ela foi torturada durante três
dias, inclusive com choques elétricos na vagina.
MARILENA VILLAS BOAS PINTO (1948-1971)Estudante
do segundo ano de Psicologia da Universidade Santa Úrsula, no Rio de
Janeiro (RJ), Marilena passou a viver na clandestinidade a partir de
1969. Juntamente com seu companheiro Mário de Souza Prata, ela foi presa
e morta nos primeiros dias de abril de 1971, no Rio de Janeiro. Ambos
eram integrantes do MR-8, com militância anterior na ALN. A versão ofi
cial divulgada pelos órgãos de segurança registrava que, em 2 de abril,
os dois teriam entrado em enfrentamento com agentes da Brigada de
Paraquedistas do Exército, na rua Niquelândia, no 23, em Campo Grande.
Mário teria morrido na hora, enquanto Marilena, ferida, teria falecido
posteriormente. Segundo relatório de prisão feito por Inês Etienne Romeu
em 1981, Marilena foi levada para um sítio clandestino em Petrópolis
(RJ), que fi cou conhecido como “Casa da Morte”. Em abril de 1997, Inês
confi rmou tal informação: “A pedido, confirmo integralmente o meu
depoimento de próprio punho, sobre fatos ocorridos na casa em
Petrópolis-RJ, onde fiquei presa de 8/5 a 11/8 de 1971. Esse depoimento é
parte integrante do processo no MJ-7252/81 do CDDPH, do MJ. Nesse
depoimento está registrado que o ‘dr. Pepe’ contou ainda que Marilena
Villas Boas Pinto estivera naquela casa e que fora, como Carlos Alberto
Soares de Freiras, condenada à morte e executada.
ALCERI MARIA GOMES DA SILVA (1943-1970)Gaúcha
e afrodescendente, Alceri trabalhava no escritório da fábrica
Michelletto, em Canoas, onde começou a participar do movimento operário e
fi liou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos. Em setembro de 1969, visitou
sua família em Cachoeira do Sul para informar que estava de mudança para
São Paulo, engajada na luta contra o regime militar como integrante da
Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). A família de Alceri viveu um
verdadeiro processo de desestruturação após sua morte, que ocorreu
juntamente com a de Antônio dos Três Reis de Oliveira, militante da ALN.
O pai, desgostoso, morreu menos de um ano depois de saber, por um
delegado de Canoas, que a filha fora morta em São Paulo. Uma de suas
irmãs, Valmira, também militante política, não suportou a culpa que
passou a sentir por ter permitido que a irmã saísse de sua casa.
Suicidou-se ingerindo soda cáustica. Depoimento dos presos políticos de
São Paulo denunciou o assassinato de Alceri e Antônio por agentes da
Operação Bandeirante (Oban), chefiados pelo capitão Maurício Lopes Lima.
Ambos foram enterrados no Cemitério da Vila Formosa e seus corpos nunca
foram resgatados, apesar das tentativas feitas em 1991 pela Comissão de
Investigação da Vala de Perus. As modifi cações na quadra do cemitério,
realizadas em 1976, não deixaram registros do local para onde foram os
corpos exumados. Alceri foi morta [...] com quatro tiros. De acordo com o
laudo necroscópico assinado pelos legistas João Pagenotto e Paulo
Augusto Queiroz Rocha, duas balas atingiram o braço e o peito, enquanto
as outras duas penetraram pelas costas, alcançando a coluna.
CATARINA HELENA ABI-EÇAB (1947-1968)Nascida
na capital paulista, Catarina, militante da ALN, era casada, desde maio
de 1968, com João Antônio Santos Abi-Eçab, também integrante da
organização. Eles se conheceram quando estudavam filosofia na Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da USP. João era ativista estudantil.
Morreram no dia 8 de novembro de 1968, na BR-116, altura da cidade de
Vassouras (RJ). Durante três décadas, não havia sido possível contestar a
versão oficial de que os dois teriam falecido em virtude de um acidente
de carro. No veículo, teriam sido encontradas armas e grande quantidade
de munição. Os legistas Pedro Saullo e Almir Fagundes de Souza
estabeleceram como causa mortis “fratura de crânio com afundamento
(acidente)”. A Comissão recebeu documentos dos órgãos de repressão sobre
o caso, arquivados no Superior Tribunal Militar (STM), e cópia do
processo instaurado pelo Estado do Rio de Janeiro, buscando coletar
informações sobre as circunstâncias das mortes. No boletim de ocorrência
que registrou o acidente, consta: “foi dado ciência à polícia às 20
horas de 8/11/68. Três policiais se dirigiram ao local, constatando que
na altura do km 69 da BR-116, o VW 349884-SP, dirigido por seu
proprietário João Antônio dos Santos Abi-Eçab, tendo como passageira sua
esposa, Catarina Helena Xavier Pereira (nome de solteira), havia
colidido com a traseira do caminhão de marca De Soto, placa 431152-RJ,
dirigido por Geraldo Dias da Silva, que não foi encontrado. O casal de
ocupantes do VW faleceu no local. Após os exames de praxe, os cadáveres
foram encaminhados ao necrotério local”. Em abril de 2001, entretanto,
denúncias feitas pelo repórter Caco Barcellos, veiculadas no Jornal
Nacional, da TV Globo, derrubaram tal versão e mostraram que João e
Catarina foram executados com tiros na cabeça. O jornalista entrevistou o
ex-soldado do Exército Valdemar Martins de Oliveira, que relatou
algumas missões atribuídas a ele pelo órgão militar de segurança – entre
elas a infiltração em grupos de teatro –, e a prisão, tortura e
execução de um casal de estudantes pelo chefe da operação militar. A
suspeita era de participação desses jovens na execução do capitão do
Exército norte-americano Charles Chandler
LABIBE ELIAS ABDUCH (1899-1964)A
sexagenária Labibe Elias Abduch era casada com Jorge Nicolau Abduch,
com quem teve três fi lhos. Foi morta por um disparo de bala em 1o de
abril de 1964, quando caminhava pela Cinelândia, no Rio de Janeiro,
interessada em obter informações sobre o movimento militar no Rio Grande
do Sul, onde se encontrava um filho seu. Narrando a cena e os fatos
desse dia, a revista O Cruzeiro, em edição extra de 10 de abril do mesmo
ano, traz o seguinte relato: “14 horas. É o sangue. A multidão tenta
mais uma vez invadir e depredar o Clube Militar. Um carro da PM posta-se
diante do Clube. O povo presente vaia os soldados. Mais tarde, choque
do Exército [...] dispersam os agitadores, que voltam à recarga, pouco
depois. Repelidos a bala, deixam em campo, feridos, vários
manifestantes: entre eles Labib Carneiro Habibude [sic] e Ari de
Oliveira Mendes Cunha, que morreram às 22 horas no pronto-socorro”.