sábado, 7 de abril de 2012
sexta-feira, 6 de abril de 2012
"O governo empurra sim Belo Monte goela abaixo", diz Erwin Kräutler, bispo do Xingu
Há dias viajando de barco pelas comunidades ribeirinhas, bispo do Xingu diz: "A promessa que Lula me fez pessoalmente no dia 22 de julho de 2009 foi pura mentira"
05/04/2012
Leonardo Boff
Dom
Erwin Kräutler trabalha há dezenas de anos na região do Xingu. Sempre
defendeu os indígenas. Sofreu até um atentado que quase o matou. Mas
nunca desistiu. Assumiu a causa dos povos da floresta ao redor de Belo
Monte. Somos velhos amigos, porque juntos demos palestras em sua terra, a
Áustria, e tomávamos rapé, a melhor coisa para não pegar gripe e dormir
bem. Ele ainda continua com o o rapé como o Papa Pio X que não passava
uma hora sem tomar rapé.
Aqui Dom Erwin elaborou um texto de
denúncia, texto veraz de quem vive a tragédia humana e ecológica que
significa Belo Monte. As autoridades não informam a população. Negam e
até distorcem os fatos.
Mas eu prefiro crer nesse homem,
austríaco, que assumiu a cidadania brasileira e indígena, que acompanha o
povo e corre sempre risco de vida.
Vamos ao testemunho impressionante dele publicado pela página do IHU
Dom Erwin Kräutler
Há
doze dias vivo a bordo do barco “Teresinha”. Estou visitando as
comunidades do interior de Porto de Moz. Não há telefone e muito menos
existe acesso à Internet. Faz um bem enorme ficar de vez em quando sem
essas comodidades. Tem-se a impressão de estar em outro planeta. Mas as
pessoas queridas que encontro ao longo da viagem e que há décadas
conheço e amo são a prova de que continuo no mesmo planeta Terra e na
“minha terra” que é o Xingu.
A primeira vez que singrei as águas
dos rios, furos e lagos de Porto de Moz foi em janeiro de 1968. Lembro
os antepassados do povo que agora me abraça. Revejo em muitos rostos os
traços de seus avós. Antigamente as famílias vieram a remo. Hoje um
motor “rabeta” diminui mais o tempo da viagem. Mesmo assim têm que
enfrentar, às vezes por horas, um sol escaldante ou chuvas torrenciais.
O
encontro comigo, como o bispo, segue sempre o mesmo esquema. Começa com
abraços, cantos, poesias, salva de palmas. Um ambiente festivo e
descontraído, sem formalidades, etiquetas e protocolos. Sinto-me em
casa. “Vós todos sois irmãos” (Mt 23,8). Também o bispo é irmão! É
nestas ocasiões que mais me realizo como pastor, no meio dessa gente que
amo e que – eu sei disso – também me ama. Todo mundo se conhece. Essa é
uma das mais belas características das Comunidades Eclesiais de Base.
Não há estranhos.
Faço questão de primeiro ouvir o povo, escutar a
sua história, ser informado a respeito de suas esperanças e angústias,
avanços e derrotas. São coisas alegres, estórias pitorescas, “causos”
que partilham comigo, mas também assuntos tristes, experiências
dolorosas.
Sempre me admiro que esse povo, apesar de viver uma vida
dura e penosa, nunca perdeu a alegria. Sabe sorrir! Aliás, que sorriso
límpido, espontâneo, cativante! Nada postiço, só para agradar o bispo.
Falam do salão comunitário que conseguiram construir, da capela que
pintaram, das reuniões semanais, do culto dominical e da novena que não
deixaram de celebrar. Revelam também problemas familiares. Alguém
denuncia a invasão de geleiras para roubar o peixe, até na época da
piracema.
“Vem com malhadeiras de malha tão fina que nem alma passa” diz alguém. Outro relata com orgulho experiências que fazem com as Reservas Extrativistas comunitárias, mas reclama do IBAMA que cai em cima deles por causa de uma tartaruga que pegam, enquanto faz vistas grossas diante das geleiras, do escandaloso roubo de madeira, de desmatamentos e outras agressões ao meio-ambiente, como por exemplo Belo Monte. “Aí dá até todas as licenças para acabar com o nosso Xingu”.
Passo,
em seguida, do papel de ouvinte para entrevistado. Jovens e adultos me
bombardeiam com perguntas de todo tipo. Assuntos internos da comunidade,
do setor, da paróquia, mas também da “conjuntura” econômica e política.
Em todas as comunidades, a pergunta principal é sobre. Querem saber
detalhes, já que o bispo vem de Altamira, do centro do monstruoso
projeto.
“Bispo, será que ainda tem jeito de impedir essa
desgraça? Ouvimos falar que estão tocando Belo Monte a todo vapor. Dizem
que o governo já gastou muito dinheiro e assim certamente não dá mais
para parar a obra. Que o Sr. acha?”
O que realmente devo responder
a esse povo? Decido “abrir o verbo”, sem meias-palavras: “Verdade é que
um rolo compressor está passando por cima de todos nós. A promessa que
Lula pessoalmente me deu no dia 22 de julho de 2009, segurando-me no
braço e afirmando “Não vou empurrar este projeto goela abaixo de quem
quer que seja” foi pura mentira. Falou assim para “acalmar” o bispo e
livrar-se deste incômodo religioso que recebeu em audiência. O governo
empurra sim Belo Monte goela abaixo!
Altamira virou um caos em todos
os sentidos. Nada do prometido saneamento básico, uma das condicionantes
do IBAMA para dar licença para iniciar a obra! Não tem leito nos
hospitais, não há vaga nas escolas, homicídios na ordem do dia,
prostituição a céu aberto no centro da cidade. Os aluguéis de uma casa
simples pularam de 300 para 2.000 Reais. Os preços de alimentos
triplicaram. O transito é uma calamidade. Acidentes a toda hora”.
“O que mais vou dizer a vocês?
Fui
várias vezes “ver” o canteiro de obras, quer dizer, queria ver, porque
não me deixaram entrar, mas vi de longe os estragos já irrecuperáveis.
Rezei missa com as comunidades ameaçadas de despejo. Os grandes
fazendeiros receberam indenizações, mas o coitado do pequeno produtor e
agricultor não sabe o que vai ser dele e de sua família. Arrasaram com
uma vila inteira: Santo Antônio. O pessoal da Norte Energia é para lá de
arrogante. Se o colono não desocupa o seu sitio, a Justiça dá ordem de
despejo e manda a polícia em cima do pobre, pois a Norte Energia
considera toda a região propriedade sua e os moradores, que lá vivem
desde os tempos do bisavô, invasores.”
“E para onde vai toda essa gente?” Me perguntam.
“Pois também eu quero saber. Prometem solução, mas nunca dizem que tipo de solução, onde, quando, de que jeito.”
“E o povo de Altamira?”
“Muita
gente está com o coração despedaçado. Até comerciantes e empresários
que antes colaram em seus carros adesivos “Queremos Belo Monte” andam
hoje cabisbaixos. Quem pode contra a fúria da “Norte Energia”?
Aliás
“Norte Energia” é o próprio Governo, antes Lula, agora Dilma. Nunca
houve diálogo com o povo daqui, nem com índios, nem com ribeirinhos, nem
com o povo da cidade. O governo traiu o povo que o elegeu e ri-se de
quem defende os índios, os ribeirinhos, os pobres atingidos pela
barragem.
Fala de preço a ser pago pelo progresso. Só que esse
preço sacrifica o nosso povo e não as famílias de políticos em Brasília.
Um terço de Altamira vai para o fundo e o resto vai ficar à margem de
um lago podre, criador de carapanã e causador de dengue e malária”.
“E os índios? É verdade que estão a favor da barragem?”
“Não
digo que estão a favor da barrage. Estão a favor dos presentes que
recebem. Muitos deles que antes viviam abandonados pelo governo e
entregues à própria sorte, hoje têm todas as contas pagas no comércio,
recebem cestas básicas e combustível e outros benefícios. O governo que
negou aos índios se manifestarem em oitivas previstas em lei, agora se
esmera em entupi-los de dinheiro para fechar-lhes a boca. Antigamente
enganou-se os índios com espelhos e bugigangas, hoje milhões de reais
são injetados nas aldeias para paralisar a luta indígena e cooptar as
lideranças. O preço é muito alto. Não se mata mais índio a ferro e fogo.
O dinheiro farto é a punhalada traiçoeira no coração das culturas
indígenas e de sua organização comunitária.
E o governo afirma em
alto e bom som que nenhuma aldeia será alagada. Aldeia será alagada,
sim! O que a Norte Energia faz, é cortar a água aos índios e ribeirinhos
da Grande Volta do Xingu. E o povo da Volta Grande vive e sobrevive da
pesca. E tem mais. O que vai acontecer com uma aldeia a poucos
quilômetros do canteiro de obras onde trabalham milhares de homens? É
muito triste! Dá dó!”
“E nós? Como é que nós vamos ficar, nós que
moramos abaixo da futura barragem? Ou, como essa gente de Brasília fala,
‘à jusante’?”
“Bem, vocês sabem o que acontece se fazem uma tapagem no igarapé. Acima da tapagem, o que acontece?”
“O igarapé alaga a terra firme!”
“E abaixo da tapagem?”
“Ora, o igarapé seca!”
“Pois
é. O Xingu abaixo da barragem vai baixar de nível e os igarapés e
afluentes também. Há trechos em que o Amazonas vai entrar no leito do
Xingu e nossos peixes que não se dão com a água barrenta do Amazonas vão
morrer.”
Por um bom tempo o povo ficou apenas me olhando e não me fez mais nenhuma pergunta. E eu comecei a pensar:
Tudo
é matéria prima para fazer negócios. Tudo vira mercadoria a ser
explorada, ser comprada e vendida, exportada e consumida! Por isso os
homens derrubam e queimam a floresta, represam e sacrificam os rios,
assassinam os animais da mata, envenenam as plantas e os pássaros.
Os homens perderam o coração. Tornaram-se insensíveis, brutos, cruéis. Decidiram matar a vida.
Boca do Rio Maxipanã, São Pedro, março de 2012
Retirado do Brasil de Fato
quinta-feira, 5 de abril de 2012
A memória "perigosa" das Ligas Camponesas
Ato foi realizado na Paraíba em memória dos 50 anos do assassinato de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas
05/04/2012
Alder Júlio
da Coordenação do Memorial das Ligas Camponesas da Paraíba
Elizabeth Teixeira em frente ao túmulo de seu marido,
João Pedro, líder das Ligas Camponesas da Paraíba
Foto: Memorial das Ligas Camponesas da Paraíba
|
Ruas
e praças de Sapé (PB) acolheram, nesse dia 2 de abril, várias centenas
de pessoas, movimentos sociais e organizações populares, vindos de
diferentes partes da Paraíba e de outros Estados da região e para além
da região, para, em grande marcha, fazerem memória de João Pedro
Teixeira, líder emblemático das Ligas Camponesas da Paraíba, assassinado
há 50 anos pelos latifundiários da região, organizados no famigerado
“Grupo da Várzea”.
Desde cedo, já se podiam ver
pelas ruas de Sapé, dezenas de jovens e adolescentes das escolas
públicas da região, inclusive as crianças “Sem Terrinha”, a desfilarem,
fardados, em direção ao cemitério Nossa Senhora Assunção, onde se acha
“plantado” João Pedro Teixeira. Da frente do cemitério local, e após a
visita reverente feita ao seu túmulo, sob a animação da Equipe de
Coordenação do Ato Público, uma multidão de pessoas, movimentos sociais
populares, pastorais sociais, organizações de base de nossa sociedade,
iam-se aglomerando, trazendo suas faixas, suas bandeiras, suas canções,
suas palavras de ordem. Dos povos indígenas às comunidades quilombolas;
dos movimentos sociais do campo aos urbanos; das pastorais socais a uma
longa lista de organizações populares e redes sociais, expressiva era a
representação das classes populares, seja quanto às relações sociais de
gênero ao segmento LGBT; seja quanto às relações de etnia, de geração,
de espacialidade.
Antes de se iniciar a marcha, a
Coordenação de Animação tratava de dar as boas-vindas, de registrar as
entidades presentes, de anunciar o roteiro do percurso em direção à
Praça João Pessoa, em Sapé. Em seguida, a multidão era convidada a
escutar, com atenção, declamações de poemas, inclusive o célebre poema
de Thiago de Melo, “Madrugada Camponesa”.
Sempre
animada por canções (“Vem, vamos embora, esperar não é saber...”;
“Ninguém ouviu um soluçar de dor...”; “Já chega de tanto sofrer, já
chega de tanto esperar...”, e por palavras de ordem, com suas faixas
estendidas e bandeiras a balançar, iniciava-se a marcha pelas ruas de
Sapé, até à Praça João Pessoa, onde haviam sido preparados serviços de
infraestrutura (água, sanitários químicos...), bem como montadas tendas
de exposição de fotos e objetos relativos às Ligas Camponesas e seus
protagonistas. Também aí, escutaram-se algumas falas de protagonistas e
aliados das Ligas Camponesas.
Após o intervalo
para o almoço, iniciou-se uma carreata em direção ao povoado de Barra de
Antas, zona rural de Sapé, onde se localizava a antiga residência de
João Pedro e Elizabeth Teixeira e seus onze filhos. Esse sítio de sete
hectares, graças à mobilização de distintas organizações articuladas
pelo Memorial das Ligas Camponesas, foi recentemente desapropriado pelo
Governo Estadual, com o objetivo de construir o Centro de Formação para o
campesinato, em especial para os jovens dos assentamentos da região.
Com
a presença de Elizabeth Teixeira, hoje com seus 88 anos (“Mulher
Marcada para viver”, como tem sido carinhosamente chamada), de suas
filhas Maria José das Neves e Anatilde Teixeira; de Marina, irmã de
outro líder das Ligas, Nêgo Fuba; de Anacleto Julião, filho de Francisco
Julião; de Luiz de Lima (Luizinho), presidente do Memorial das Ligas
Camponesas; de João Pedro Stédile, do MST; de ex-deputados aliados ou
envolvidos com as Ligas Camponesas, de prefeitos da região, de
secretários e outras figuras, foi solicitado a Dom José Maria Pires,
arcebispo emérito da Arquidiocese da Paraíba, para proceder à bênção do
Memorial, cuja sede se acha instalada justamente na casa em que viveram
João Pedro e Elizabeth Teixeira e família.
Coube
ao Governador Ricardo Coutinho entregar simbolicamente a chave da casa à
Elizabeth Teixeira, bem como reconfirmar a aquisição feita pelo Estado
dos sete hectares do referido local, com o objetivo de lá construir o
Centro de Formação para o campesinato.
Várias falas foram escutadas, completando assim a agenda desse memorável dia 2 de abril de 2012. Estava,
sim, alcançado o propósito de fazer memória das Ligas Camponesas da
Paraíba, em especial de João Pedro Teixeira e seus companheiros de luta.
Cumpria, sim, dar vazão ao exercício da memória perigosa de que estavam
grávidas as Ligas Camponesas, no auge de sua efervescência, situado
entre 1955 e 1964. Cumpria, sim, beber nessas fontes, dela recolhendo
lições para o enfrentamento dos desafios presentes e em função da
realização dos sonhos mais generosas da humanidade, de construção de uma
nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista.
Além
de fazer memória, também foi organizado o Ato para a inauguração do
Memorial das Ligas Camponesas, no povoado de Barra de Antas, na zona
rural do município de Sapé. O Memorial das Ligas Camponesas da Paraíba
constitui uma organização criada em 2008, com o objetivo de manter viva e
vivificante o legado das Ligas Camponesas e de seus protagonistas e
lutadores pela Reforma Agrária. Para tanto, a coordenação do Memorial
das Ligas Camponesas, em parceria com a CPT e com as universidades
públicas da região, vem envidando esforços, desde então, no sentido de
viabilizar tais objetivos, por meio de um Centro de Formação para o
campesinato, que permita, entre outras atividades formativas, viabilizar
a organização e manutenção de um acervo público de memória
(fotografias, filmes/documentários, cartilhas, folhetos de cordel,
documentos históricos relativos às Ligas Camponesas, entrevistas,
depoimentos, etc.), bem como o despertar da consciência crítica dos
camponeses da região, em especial os jovens das dezenas de assentamentos
da região, a partir de um projeto de formação permanente, envolvendo
diferentes parceiros e aliados, dentre os quais a CPT e as universidades
públicas da região, notadamente recorrendo às suas atividades de
extensão. Nesse sentido, passos vêm sendo dados e seguirão prosperando.
Graças
a sucessivos encontros e reuniões ampliadas, foi-se desenhando a
organização desse grande Ato Público que teve lugar em Sapé e em Barra
de Antas, povoado do mesmo município. Tratava-se de, a partir da figura
inspiradora de João Pedro Teixeira (impacta, ainda hoje, o fato de
termos encontrado no Ato várias crianças e adultos com o nome de João
Pedro!), centrar atenção no conjunto de protagonistas individuais e
coletivos, representativos desse grande movimento social em que se
transformaram as Ligas Camponesas.
Em João Pedro
Teixeira e em tantos lutadores e lutadoras, de ontem, de hoje e de
sempre, nos inspiramos para o enfrentamento exitoso dos desafios
presentes, associando-nos aos mesmos sonhos de construção de uma
sociedade justa e solidária, na qual a Reforma Agrária já não seja uma
expressão vaga, mas uma realidade concreta, que permita aos
Trabalhadores e Trabalhadoras do campo e da cidade uma vida digna e de
qualidade social, em harmonia com a Mãe-Natureza.
Ontem,
hoje, no dia 2 de abril e sempre, sigamos fazendo memória, revisitando
João Pedro Teixeira e as Ligas Camponesas, movidos por três dimensões
complementares: memória-mística-utopia, recolhendo as lições do seu
denso legado; preparando-nos para enfrentar os desafios presentes, com
lucidez e criatividade, e dispondo-nos a avançar na luta por uma
sociedade alternativa à barbárie do Capitalismo.
Barra de Antas, 3 de abril de 2012
Coordenação do Memorial das Ligas Camponesas da Paraíba
Carta ao senador Inácio Arruda, do PCdoB
Prestes não aceitaria a anulação da cassação do seu mandato de
senador através de manobra do PCdoB, cujo objetivo evidente é tirar
proveito político do inegável prestígio do Cavaleiro da Esperança
05/04/2012
Rio de Janeiro, 4 de abril de 2012
Exmo. Sr. Senador Inácio Arruda
Senado Federal - Brasília
Na
qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e de sua colaboradora
política durante mais de 30 anos, devo declarar minha repulsa e
indignação com a proposta de sua autoria de que seja declarada nula a
decisão do Senado que cassou, em 1948, o mandato do senador Luiz Carlos
Prestes. Meu pai jamais aceitaria semelhante medida individualmente,
isolada, sem que as centenas de parlamentares comunistas cassados
(deputados federais, deputados estaduais e vereadores) juntamente com
ele tivessem também devolvidos seus legítimos direitos constitucionais.
Todos que o conheceram sabem o quanto Prestes, nesse sentido, era
intransigente.
Na realidade, a proposta
encaminhada ao Senado Federal por um representante do Partido Comunista
do Brasil (PCdoB) revela, mais uma vez, algo que Prestes denunciou
incessantemente durante os seus últimos dez anos vida: o reformismo
desse partido, sua adesão aos interesses das classes dominantes do País,
seu compromisso espúrio com o Governo Sarney, nos anos 1980,
compromisso confirmado no texto da mensagem ora encaminhada à apreciação
do Senado.
Luiz Carlos Prestes sempre deixou
claro que a legalidade dos comunistas deveria ser conquistada nas ruas,
pelo povo, e não através de conchavos de bastidores, como aconteceu, no
caso do PCdoB, em 1985. Prestes também não aceitaria a anulação da
cassação do seu mandato de senador através de manobra do PCdoB, cujo
objetivo evidente é tirar proveito político do inegável prestígio do
Cavaleiro da Esperança.
Atenciosamente,
Anita Leocadia Prestes
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