quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012


PERFIL
 Bárbara Mengardo

AMELINHA TELES

PERSISTÊNCIA NA MILITÂNCIA
POLÍTICA E FEMINISTA

    
Dona de uma história de vida de muita dor e luta, Maria Amélia de Almeida Teles, ou Amelinha, como é carinhosamente chamada, teve sua trajetória profundamente marcada pelo período mais duro da história do nosso país, e fez dessa experiência sua militância até os dias de hoje.
Ex-presa política, Amelinha foi torturada nos porões da ditadura, e desde então nunca deixou de lutar para que essa página não seja arrancada de nossa história, e que os torturadores sejam identificados e punidos.
Sua luta, de sua família e amigos, rendeu uma vitória histórica para o nosso país. A família Teles entrou, em 2008, com uma ação contra o coronel reformado Carlos Albreto Brilahnte Ustra, e conseguiu que, pela primeira vez na história brasileira, um militar fosse considerado torturador perante a Justiça.
Mas a luta para que a memória da ditadura não seja apagada é a única na qual Amelinha está envolvida. Feminista, ela se empenha pela pauta que, segundo ela, “Até hoje é muito secundarizada, mesmo com uma mulher como presidenta”.
Amelinha nasceu na cidade de Contagem, Minas Gerais, no ano de 1944. Seu pai, sindicalista e membro do Partido Comunista (PC), a influenciou muito, e ainda no colégio, ela começou a militar no movimento estudantil.
Aos 15 anos Amelinha já era membro do PC do B, e marcaria definitivamente sua vida e a de muitas outras pessoas por todo país. Ela se lembra do dia do golpe: “Belo Horizonte, onde eu vivia, começou a ter uma força invisível prendendo pessoas; você não via ninguém prendendo, só não encontrava elas. Eu e meu pai, ligamos o rádio e ouvimos que as tropas estavam saindo de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro, para se juntar com as tropas golpistas”.
Três dias depois do golpe seu pai foi trabalhar e não retornou para casa. Inicia-se uma jornada de sua família por quartéis para encontrá-lo. “Os quartéis era tão procurados que as filas davam voltas. A gente ficava horas na fila, e depois que entrávamos, dizíamos: ‘Estou procurando meu pai’. E eles: ‘Não temos informações sobre ele’. Passamos em vários quartéis, até que um dia me prenderam”.
Reconhecida pela polícia, Amelinha ficou três dias presa. Ela conta a acusação que lhe foi feita: “Eles inventaram que nós íamos envenenar a caixa d’água da cidade, para envenenar o povo”.
Apenas em agosto de 1964, quatro meses após o golpe de Estado, a família consegue encontrar o pai, que estava preso na cidade de Ribeirão das Neves, a 32 Km de Belo Horizonte. Após localizar seu pai, Amelinha se muda para a Baixada Fluminense para cuidar da imprensa do partido.
Do Rio ela vai para a cidade de São Paulo, onde é presa novamente, no dia 28 de dezembro de 1972, por agentes da Operação Bandeirante (OBAN) comandada pelo major Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Os militares prenderam também seu companheiro, César Teles e seus dois filhos, de quatro e cinco anos. Durante uma semana ficaram presos e presenciaram os pais sendo torturados. A irmã de Amelinha, Criméia de Almeida, que estava grávida de seis meses, também foi levada.
Amelinha ficou presa por um ano e foi torturada, inclusive, por Ustra. Ao sair da prisão foi morar com seus filhos, sua irmã e seu sobrinho, que nasceu em um hospital militar durante o período em que sua mãe estava presa.
Segundo Criméia, nesse período eles contaram com muita solidariedade: “Éramos três adultos desempregados, com três crianças estigmatizadas. Recebemos muita solidariedade de familiares, presos e ex-presos, foi o que fez a gente conseguir se segurar. Eu tive não sei quantos empregos, porque eu entrava, o Dops ia lá e eu era demitida”.
Amelinha cita outra situação interessante: “Eu arrumei um emprego com uma alemã judia, que teve que fugir do nazismo. A gente chamava ela de Elo. No lugar onde eu trabalhava tinha um lustre, que às vezes tinha um envelope pendurado com o meu nome escrito à máquina, e dentro estava cheio de dinheiro. Muito tempo depois, eu descobri que a Elo era de uma comunidade de judeus que ajudavam pessoas perseguidas”.
Durante o tempo que passou na prisão, Amelinha refletiu sobre o machismo e desigualdade de gênero. “A condição de mulher e a maternidade eram utilizadas para torturar. Eu percebi, também, com o coletivo de mulheres com o qual eu vivi na prisão, que em comum nós tínhamos uma experiência fruto da desigualdade, mesmo na militância”.
Ela decide militar pelo feminismo, apesar de a sua relação com o tema vir de antes da prisão. Amelinha considera que se tornou feminista pouco antes do golpe, quando assistiu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu cerca de meio milhão de pessoas em São Paulo; a maioria mulheres: “Quando eu vi aquela mulherada acompanhando os padres, pregando contra o comunismo e João Goulart, eu pensei: ‘a gente está errado em alguma coisa, não é possível que o povo que a gente defende seja contra a nós’. Depois que eu ponderei que a esquerda negligenciou muito a força das mulheres, privilegiou os homens como já era próprio do capitalismo”.
Em 1981, Amelinha participa da fundação da União das Mulheres, que até hoje tem como principais pautas a legalização do aborto, fim da violência contra a mulher, salário igual para trabalho igual, entre outros. Ela atribui à sua militância feminista de sua expulsão do PCdoB, em 1987.
Em 2008, a família Teles entrou com uma ação declaratória contra Carlos Alberto Brilhante Ustra, que, vitoriosa, fez com que a Justiça o declarasse torturador. Ivan Seixas, ex-preso político e testemunha da ação, afirma: “O processo oficializa e informa que houve uma ditadura, que mataram pessoas, censuraram, castraram uma geração inteira. A importância dessa sentença é dar nome aos torturadores, porque a maior parte deles é conhecido apenas por apelidos. Essa ação da família Teles abre portas para um série de outros processos”.
Exemplo de outras ações que foram possibilitadas por essa é o da família do jornalista Luiz Eduardo Merlino, torturado e morto por Ustra em 1971. Uma ação movida por sua irmã e sua ex-companheira, que ainda está em fase de julgamento, prevê uma indenização por danos morais.
Ainda há muito a ser esclarecido a respeito dos mortos e desaparecidos da época da ditadura. Muitos torturadores vagam pelo país sob o manto do anonimato, e os resquícios dessa época ainda podem ser percebidos. “Toda a sociedade brasileira foi vítima da ditadura, e hoje nós sofremos com o entulho autoritário que se manteve deste período, como o sigilo dos documentos e um projeto da comissão da verdade pela metade, define Criméia.

Bábara Mengardo é jornalista


Caros Amigos / Outubro 2011






Charges na rua!


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cuba: que apresentem a primeira prova


Nos últimos dias, intensificou-se uma campanha de desinformação sobre a morte do preso cubano comunista Wilman Villar Mendoza, com a participação dos meios de comunicação a serviço do imperialismo dos EUA e seus aliados europeus. 
Portanto, apresento trechos do livro, Fidel Castro, Cuba e Estados Unidos, onde o jornalista francês Salim Lamrani fala com Ricardo Alarcon de Quesada, presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular em Cuba, publicado pela Editorial José Martí 2007, e mantém pleno vigor. 
Salim Lamrani: Na mídia ocidental fala-se muito e, muitas vezes denunciando as condições muito difíceis de detenção em Cuba. Que impressão faz disso? 
Ricardo Alarcón: Quando eu li a descrição das prisões cubanas na imprensa internacional - embora, obviamente, nenhum desses jornalistas, de modo prolixo sobre este assunto nunca pôs os pés em uma prisão cubana - Tenho a impressão de que outras prisões países são hotéis de quatro estrelas. 
Nossas prisões não são hotéis, mas os detentos são mantidos em condições que lhes permitam manter a sua dignidade humana. Aproximadamente 70% dos reclusos fazem uma atividade que é pago aos mesmos da mesma forma que para qualquer outro cidadão livre. Receber salário integral, como qualquer trabalhador neste país. 
Que outros países permite que seus presos para trabalhar e receber um salário? Nenhum! 
Nosso detentos têm acesso à cultura e saúde. Muitos deles servem sentenças em suas casas. 
A propaganda inimiga tem dito muitas mentiras. Lembro-me da história de Armando Valladares, um homem que foi condenado a uma pena longa por cometer ataques terroristas. Ele nunca falou sobre isso na imprensa internacional na época. No entanto, Valladares, no início da Revolução, escondeu explosivos nos pacotes de cigarros e jogou-os em lugares frequentados pelo público. Essa é a razão pela qual ele estava preso e condenado. 
SL: Ele foi libertado graças à intervenção de François Mitterrand, através de Régis Debray. 
RA: A administração Reagan tinha montado uma encenação cheia neste caso. De um só golpe, esse poeta terrorista ficou paralisado! A Cruz Vermelha chegou a enviar-lhe uma cadeira de rodas. 
O governo francês foi advertido que ele estava traindo, e que tínhamos um vídeo mostrando Valladares fazer ginástica todos os dias. Mas eles não quiseram ouvir nada e continuou a dar crédito a essa propaganda bruto. 
SL: O que aconteceu? 
RA: Nós fizemos o jogo. Valladares foi conduzido ao aeroporto por nés em sua cadeira de rodas e uma vez lá, nós explicamos que ou se levantava sem ajuda e subia no avião para ir para a França, ou continuava fingindo e o devolvíamos a cadeia. Talvez você sabe o que se seguiu: arremesso da cadeira de rodas como um gato e correu para o avião. 
SL: Eu acho que essa cena Régis Debray tem em seu livro, que nos diz que o poeta não era um poeta, que o paralítico realmente gozava de muito boa saúde e que os cubanos se tornaram americanos. 
RA: Certo. Valladares tornou-se a passar a noite no embaixador dos Estados Unidos à Comissão de Genebra, para participar na guerra de propaganda contra Cuba. Valladares foi libertado da prisão para desfrutar de excelente saúde. No entanto, ele passou 20 anos atrás das grades. 
Eles tiveram muitos horrores das prisões cubanas, mas não há um único detento que morreu na prisão ou que foram torturados na prisão. Não há um único detento que fora libertado da prisão com a saúde debilitada. Não há nenhum detento contra o qual tenha sido vítima de violência física. Não há ninguém o qual tenha sido privado de comida. Dizer o contrário é não só um insulto ao governo cubano, mas também um insulto ao povo cubano, pois isso nunca permitiria que a menor violação dos direitos humanos. 
Além disso, entre parênteses, o tratamento humano dos prisioneiros tomamos durante a guerra contra Batista, explica porque a vitória foi alcançada tão rapidamente, em apenas dois anos, contra um exército poderoso do ponto de vista militar. Nunca torturamos um soldado de Batista que tenha sido feito prisioneiro. Pelo contrário, se ele estava ferido, curávamos. Em seguida propúnhamos para integrar a nossa luta, e se ele recusava, pedíamos apenas para não ao exército mais. 
Por esta razão, por esse tratamento humano, os soldados no final se renderam para nossas forças às centenas. Eles sabiam, havia sido dito que eles seriam bem tratados, que não seriam torturados, e que seriam alimentados e curados. Tínhamos um código muito claro de conduta e ética que encontramos hoje em nossa aldeia. 
Em resumo, não existe um teste único para corroborar todos os horrores de que somos acusados. Nós não somos exigentes, testamos um, não dois, um. Você sabe por que ninguém jamais foi capaz de apresentar um único teste? Simplesmente porque isso não é nada mais do que um monte de mentiras para denegrir a nossa revolução.

Retirado do La pupila insomne