sexta-feira, 30 de março de 2012
quinta-feira, 29 de março de 2012
Militares em defesa da democracia
via Rede Democrática
AOS BRASILEIROS
Na condição de Oficiais Reformados, sócios dos Clubes Militares, somos forçados a discordar do abaixo assinado subscrito por vários Oficiais da Reserva, em apoio ao recente Manifesto dos Presidentes dos Clubes, que foi retirado do site do Clube Militar, após terem recebido ordens dos Comandantes das Forças, que, numa atitude exemplar e equilibrada, recomendaram que o fizessem. Esse documento continha referências à Presidente Dilma Rousseff, por não censurar seus Ministros, que fizeram críticas exacerbadas aos governos militares”. Agora, esse abaixo assinado, subscrito por esses Oficiais ( da Reserva e Reformados) e também pelo Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, aparelho de repressão da Ditadura em São Paulo, que está sendo acusado na Justiça de torturar presos políticos ( crimes que ele nega), refere-se de modo desafiador ao Ministro da Defesa, Celso Amorim, “ a quem não reconhecem qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo”, o que, a nosso juízo, além de ser um comportamento desrespeitoso, inaceitável na vida militar, configura, induvidosamente, uma insubordinação, uma “quebra da disciplina e da hierarquia”. Só para lembrar aos signatários desse insensato documento, o tal Manifesto cobrava da Presidente o compromisso em que afirmava, no discurso de posse dos Ministros:
“De minha parte, não haverá discriminação, privilégios ou compadrio. A partir da minha posse, serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.”
E foram além em suas críticas, asseverando:
”Parece que a preocupação em governar para uma parcela da população sobrepuja-se ao desejo de atender aos interesses de todos os brasileiros”
Queremos, desde logo, restabelecer uma verdade, que os Presidentes dos Clubes Militares e alguns desses senhores teimam em não reconhecer, a de que o verdadeiro regime democrático é o que estamos vivendo, e não aquele dos “governos militares”, que não permitiriam, jamais, tais “diferenças de opinião, de crença e de orientação política”. Por outro lado, faz-se necessária uma correção, a de que a Presidente Dilma Roussef ( que não nos deu procuração), não governa para “uma parcela da população”, e sim, para todos os brasileiros, vitoriosa que foi nas urnas por uma indiscutível e expressiva votação, o que deve ter desagradado todos esses senhores.
Quanto às críticas exacerbadas aos governos militares, pelo que fizeram durante o regime de exceção, elas continuarão sendo feitas, sim, pois estamos vivendo em pleno regime democrático, onde todos os segmentos organizados da sociedade mostram-se ansiosos por descerrar esse véu que encobre a verdadeira história da repressão. “ Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora”, como afirmou o editorialista Veríssimo, em O GLOBO de 01/03/2012. E isso não é revanchismo, por que, afinal, aquelas críticas referem-se a um contexto onde pessoas, que se encontravam presas e indefesas sob a tutela do Estado ( Ditatorial), mesmo assim, foram barbaramente torturadas, muitas até a morte, o que sempre mereceu a reprovação dos seres humanos civilizados. O povo brasileiro traz consigo a marca da generosidade, pois soube suportar com resignação as violências nesse tempo praticadas, como corretos foram muitos de nossos companheiros de caserna, que se mantiveram dignos e não sujaram as suas mãos, e nem se envolveram nos expedientes da repressão e da tortura.
O ideário do chamado “capitalismo selvagem”, que plasmava as ações da nova ordem mundial, sob a liderança dos Estados Unidos, o que se acha confirmado pelo depoimento do Embaixador americano de então, o Sr. Lincoln Gordon, exigia que fossem contidos todos os Governos que, politicamente, demonstrassem uma posição antagônica aos seus interesses, e mostrassem preocupações com as questões sociais dos seus povos. Sob a chancela dessas forças, coincidentemente, e no mesmo momento histórico, foram instaladas Ditaduras nos países da América Latina, através de golpes de Estado. Prevaleceu a “velha cantilena”, que deu origem à ridícula história de que “era preciso impedir o avanço do comunismo internacional”, o que veio sensibilizar alguns incautos e desavisados, sem nenhum estudo ou leitura (coitados !) sobre o que se passava no mundo da guerra fria, inobstante estivesse em vigor uma Constituição que proclamava a liberdade de pensamento. O que se lamenta é que muitos dos nossos colegas, que eram, à época, jovens oficiais, recém saídos das Escolas militares, a quem ensinaram durante a Ditadura, que a ideologia da segurança nacional se sobrepunha a qualquer outra, passaram anos sem liberdade, impedidos que foram de conhecer, e até de professar, qualquer outro credo político. Até hoje, tem sido assim por que, se o fizerem, serão “demonizados” pelos demais.
Estamos exercendo o legítimo direito da contestação, que a ordem democrática vigente assegura aos seus cidadãos. Não estamos mais em Ditadura, que serviu a interesses escusos de alguns , onde a suspensão das garantias constitucionais, a censura à imprensa, as prisões ilegais e arbitrárias (até mesmo, por simples delação), a prática da tortura ( o que levou o Presidente Geisel a punir chefes militares em São Paulo), tudo isso, deixou marcas profundas para ser esquecido, por que faz parte da historia contemporânea do nosso Brasil. Tais fatos nos enchem de vergonha perante o mundo, pelas indesculpáveis violações aos direitos humanos praticadas sob o manto protetor do aparelho de Estado. Estão alegando que o STF, em recente decisão, concluiu pela anistia dos agentes que praticaram tais “crimes políticos ou conexos”. Apenas para esclarecer, seria correto examinar, e, para tanto, chamamos a atenção do Conselho Federal da OAB, os textos da Lei 6683/79 e da Emenda Constitucional nº 26/85, que, respectivamente, nos seus arts. 1º, e 4º, parágrafo 1º e 2º, assim expressam:
LEI 6683, DE 28 DE AGOSTO DE 1979
“Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, ( o grifo é nosso) cometeram crimes políticos ou conexos com estes…”
Emenda Constitucional nº 26/85
“§ 1º – É concedida, igualmente, anistia aos autores de crimes políticos ou conexos,…”
“§ 2º – “A anistia abrange os que foram punidos ou processados pelos atos imputáveis previstos no “caput” deste artigo, PRATICADOS NO PERÍODO compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979.” ( o grifo é nosso)
Como ficam os crimes e os criminosos das três bombas colocadas, no dia 27 de AGOSTO DE 1980, em três instituições, no Rio de Janeiro, como descreve um jornal da época:
“Duas bombas de alto teor explosivo provocaram a morte de uma senhora e ferimentos em outras seis pessoas, ontem, no Rio, em dois atentados ocorridos no início da tarde: um, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil e outro na Câmara dos Vereadores. Num terceiro atentado, de madrugada, uma bomba de pouca potência destruiu parcialmente a sala do jornal
“Tribuna da Luta Operária”, não fazendo vítimas.
A bomba colocada na sede da OAB atingiu a secretária da entidade, Lida Monteiro da Silva, que teve o braço decepado, vindo a morrer minutos após ter dado entrada no hospital. No atentado na Câmara dos Vereadores, o sr. José Ribamar de Freitas, tio e assessor do vereador Antônio Carlos de Carvalho, do PMDB, perdeu um braço e uma vista, encontrando-se até a noite de ontem em estado grave. Outras cinco pessoas que estavam no local foram feridas. ( Folha de S.Paulo – quinta-feira, 28 de agosto de 1980)
E a bomba do Riocentro, cuja explosão se deu em 30 de abril de 1981!!!, que a imprensa assim noticiou:
“A explosão ocorreu dentro de um automóvel puma, na noite de 30 de abril de 1981, com a bomba no colo do Sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, cuja morte foi instantânea. Ao lado do sargento, no volante, estava o Capitão Wilson Luiz Chaves Machado, o qual, ato contínuo, sai do Puma segurando vísceras à altura do estômago.” (Fonte: CMI Brasil)
Que ninguém duvide, que o que queremos é “um regime de ampla democracia, irrestrita para qualquer cidadão, com direitos iguais para todos”.
Os “torturadores ( militares e civís), que não responderam a nenhum processo, encontram-se “anistiados” (?), permaneceram em suas carreiras, e nunca precisaram requerer, administrativa ou judicialmente, o reconhecimento dessa condição, diferentemente daqueles, suas vítimas, que até hoje, estão demandando junto aos Tribunais, para terem os seus direitos reconhecidos.
ONDE ESTÃO OS CORPOS DOS QUE FORAM MORTOS PELAS AGRESSÕES SOFRIDAS? OS SEUS FAMILIARES QUEREM SABER, POIS TÊM DIREITO A ESSA INFORMAÇÃO!
Assim sendo, também queremos a mesma ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA, assegurada a esses insanos agentes da ditadura. E, temos certeza, de que isso não é nenhum absurdo, pois tem a aprovação das pessoas sensatas, daqueles diletos companheiros de caserna (dos quais, de muitos, somos amigos), que não se envolveram em práticas criminosas, e que têm no rol dos seus deveres éticos, o que se acha inscrito nos estatutos militares: “exercer, com autoridade, eficiência e probidade, as funções que lhes couberem em decorrência do cargo; RESPEITAR A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA; ser justo e imparcial no julgamento dos atos e na apreciação do mérito dos subordinados.”
Finalmente, como afirmava o mestre Darcy Ribeiro:
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar.
E eu não vou me resignar nunca.”
Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 2012
Luiz Carlos de Souza Moreira Capitão de Mar e Guerra
Fernando de Santa Rosa Capitão de Mar e Guerra
quarta-feira, 28 de março de 2012
HOMENAGEM - Adeus à Ademilde Fonseca a eterna e única “Rainha do Chorinho” – Por Humberto Oliveira
Outro dia estava ouvindo um CD de Ademilde Fonseca, cujas interpretações
impecáveis sempre me deslumbraram. A rapidez, o ritmo e o fraseado
davam conta de interpretações primorosas de choros antológicos de
autores como Pixinguinha, Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho, apenas
para citar algumas feras.
Denominada “Rainha do Chorinho”, por Benedito Lacerda, músico,
compositor e parceiro de Herivelto Martins, Mário Lago, entre outros,
Ademilde imprimiu ao choro cantado personalidade única e inimitável. Se
duvidarem, basta ouvir sua interpretação de Brasileirinho, Tico-Tico no
fubá, Urubu malandro, Odeon e tantos outros sucessos de sua carreira,
que infelizmente chegou ao ponto final aos 91 anos.
Ademilde morreu de infarto fulminante na noite desta terça-feira,
27 de março, no Rio de Janeiro, a cantora foi uma das mais expressivas e
originais intérpretes da música popular brasileira, que fica mais pobre
com esta perda irreparável, pois ela não deixa herdeiras do seu talento
único. Assim como houve apenas um “Cantor das multidões”, Orlando
Silva; um “Rei da Voz”, Chico Alves; uma “Pequena Notável”, Carmen
Miranda; sempre haverá apenas uma “Rainha do Chorinho”, Ademilde
Fonseca.
Nascida na localidade de Pirituba, no Rio Grande do Norte, a
cantadora iniciou a carreira na década de 1940 e continuava normalmente
suas atividades. O último show foi realizado em Porto Alegre. Ademilde
deixa uma filha, a também cantora Eymar Fonseca, três netas e quatro
bisnetos.
Ainda na adolescência, começou a se interessar pelas serestas e
travou conhecimento com músicos locais. Em 1942, se apresentou no
programa Papel Carbono, de Renato Murce. No mesmo ano, acompanhada pelo
regional de Benedito Lacerda interpretou durante uma festa o choro
"Tico-Tico no Fubá", de Zequinha de Abreu, com letra de Eurico
Barreiros. O flautista gostou tanto de sua interpretação que tomou a
iniciativa de levá-la aos estúdios da gravadora Columbia, na época
dirigida pelo compositor João de Barro (Braguinha).
Sua estreia em disco aconteceu em agosto de 1942, num 78 rpm que
trazia o choro "Tico-Tico no Fubá" e o samba "Voltei pro morro", de
Benedito Lacerda e Darci de Oliveira. Foi a primeira vez que o choro de
Zequinha de Abreu composto em 1917 era gravado com a letra escrita por
Eurico Barreiros após a morte do compositor.
A partir de 1954, na Rádio Nacional, passou a apresentar-se com
os regionais de Canhoto, Jacob do Bandolim e Pixinguinha e também com as
orquestras de Radamés Gnattali e do maestro Chiquinho. Em 1957, ficou
em terceiro lugar no concurso para a escolha da "Rainha e Rei do Rádio"
com 100.445 votos. Em 1958, gravou o LP "À la Miranda", no qual
interpretou músicas que foram sucessos na voz da "Pequena Notável", como
"Camisa listada", "Uva de caminhão" e "Recenseamento", todas de Assis
Valente.
Na década de 1970, apresentou-se em shows no Teatro Opinião no
Rio de Janeiro e lançou um LP pela gravadora Top Tape, em 1975. Neste
disco destaca-se a faixa "Títulos de Nobreza", que tem também o nome de
"Ademilde no Choro". Trata-se de um presente para a cantora da dupla de
compositores João Bosco e Aldir Blanc. A letra se refere a diversos
títulos de choros, muitos deles gravados anteriormente por ela.
Foi homenageada pela Escola de Samba Imperatriz Alecrinense, em
Natal, RN, que desfilou, no Carnaval de 2007, tendo como tema a sua
história - ``Saudação da Imperatriz a uma Rainha (Ademilde Fonseca )".
Cantora de importância fundamental na música popular brasileira, e particularmente para o desenvolvimento do choro. Até o seu surgimento, o choro não era para ser cantado e era considerado como um gênero exclusivo dos instrumentistas.
Cantora de importância fundamental na música popular brasileira, e particularmente para o desenvolvimento do choro. Até o seu surgimento, o choro não era para ser cantado e era considerado como um gênero exclusivo dos instrumentistas.
A grande Ademilde
vai deixar saudades e merecia ser reverenciada pelo talento e
contribuição à música popular brasileira, ao samba e principalmente ao
choro. Com sua morte a nossa música perde mais um ícone. Enquanto isso a
mídia propaga lixo e mais lixo, deixando de lado e relegando ao
esquecimento artistas como Ademilde Fonseca, nossa eterna “Rainha do
Choro”.
Links para ouví-la e conferir tudo isso:
terça-feira, 27 de março de 2012
VER-O-PESO de José Ildone
Se mandassem pesar
o peso que a vida tem,
eu passaria minha vida
a ver o peso em Belém
|
segunda-feira, 26 de março de 2012
O massacre de Port Said: Muito mais do que futebol
Novos protestos aconteceram hoje na
cidade egípcia após o clube Al-Masry ter sido banido por dois anos das
competições; confrontos deixaram uma criança morta e 19 feridos
Brasil de Fato - 24/03/2012
Raphael Tsavkko Garcia
Mas a confusão não se tratava do resultado apenas da rivalidade entre as duas equipes, ao contrário do que foi veiculado pelo governo egípcio, interessado em abafar ao máximo o caso. Ao mesmo tempo em que há dúvidas sobre se se tratava efetivamente de torcedores do Al-Masry ou de agentes infiltrados e marginais contratados.
No dia 25 de janeiro, a Revolução Egípcia havia completado um ano, e a mobilização nas ruas do Egito e em especial na Praça Tahrir, no Cairo, continuavam fervilhando. Os manifestantes conseguiram derrubar o ditador Hosni Mubarak, mas acabaram sendo forçados a engolir uma junta militar que reprime a população com a mesma ferocidade do regime anterior. Para complicar a situação, a economia egípcia entrou em colapso com os contínuos protestos e com o clima de terror, além da violência ter sofrido uma imensa escalada.
Segundo o ativista brasileiro Aldo Sauda, que há meses está no Cairo acompanhando o processo revolucionário e participando ativamente da linha de frente dos protestos na Praça Tahrir, epicentro da Revolução, trata-se de um caso claro de manipulação da temida SCAF, o Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito, que tomou o poder após a deposição de Mubarak, formando um conselho militar que mantém insatisfeito o grosso dos manifestantes.
A SCAF é o resultado da pressão dos militares que por anos sustentaram o regime de Mubarak e que hoje buscam manter seu poder sobre o país.
Eleições foram realizadas no Egito, mas boicotadas por grande quantidade dos milhões de manifestantes egípcios, na sua maioria jovens, que não concordaram com o processo organizado por militares, e que viu a formação de uma maioria islâmica composta pelos moderados da Irmandade Muçulmana e por Salafistas.
Durante os protestos na praça Tahrir os chamados Ultras ou UA07 - torcedores fanáticos, neste caso do Al-Ahly - comparecetam em peso e eram responsáveis pelas músicas mais ofensivas ao regime, como explica Sauda. O futebol ficou em segundo lugar ao passo que torcedores Ultras do Zamalek – os Cavaleiros Brancos -, principal rival do Ahly, se juntaram aos protestos, pacificamente cantando junto aos torcedores do time rival.
A união contra o regime foi tanta que ambas torcidas Ultras se fundiram e passaram a se chamar "Ultras Freedom", ou Ultras Liberdade. Ao contrário do senso comum, os Ultras de ambas as torcidas, e em especial do Al-Ahly são relativamente pacíficos e extremamente politizados. Apesar de alguns “soluços”, como chama o jornalista Mohamed El Dahshan os conflitos esporádicos e típicos em estádios egípcios, nunca um episódio de tamanha violência havia ocorrido. Algo está errado, diz o jornalista.
Torcidas organizadas
Não fosse a presença aguerrida e radical de diversos membros Ultra no Cairo, é possível que a Revolução não tivesse se sustentado por tanto tempo e a população tivesse resistido de forma tão tenaz. As torcidas organizadas radicais no Egito não são antigas, mas nasceram em grande parte do descontentamento com o regime e como válvula de escape frente à insatisfação da juventude.
Cantos como "Abaixo o Regime Militar" ou "O povo quer que o Marechal seja executado", em referência ao Marechal Tantawi que comanda o regime militar, eram lugar comum entre os diversos gritos e palavras de ordem da torcida do Al-Ahly em Tahrir e no estádio de Port Said. Pichações Pichações com a insígnia ACAB (All Cops Are Bastards – todos os policiais são bastardos) são vistos lado a lado com slogans revolucionários em cada espaço vazio na cidade do Cairo.
A jornalista Dima Khatib comentou, em seu blog e nas redes sociais, que torcedores Ultras do Al-ahly contavam músicas ofensivas contra o regime militar dentro e fora do estádio e as imagens do momento do massacre denunciam a falta de ação da polícia, que não se moveu para defender os torcedores e jogadores do Al-Ahly.
Massacre arquitetado
A tese da conspiração e de um massacre arquitetado pelo regime se sustenta também pela notada ausência do governador de Port Said e de seu chefe de segurança a um jogo em que normalmente compareceriam, denunciou o parlamentar Mohamed Abou Hamed à televisão egípcia. Que existe rivalidade entre as torcidas Ultra do Al-Ahly e do Al-Masry não é novidade, há alguns anos a torcida do segundo roubou alguns troféus da sede do primeiro. Mas, em geral, a violência tem sido localizada e contida.
Ativistas egípcios não descartam que torcedores do Al-Masry tenham sido pagos para agir ou mesmo que provocadores do exército tenham incitado a torcida a partir para cima dos Ultras do Al-Ahly, mas em meio a uma situação convulsionante toda opinião é tão válida quanto a outra.
Torcedores do lado de fora do estádio acusaram a polícia de ter fechado diversos portões, dificultando a fuga da torcida que, apesar da maior do país, era minoria em Port Said. Segundo o jornalista Mohamed Elmeshad, os procedimentos de segurança padrão para jogos do campeonato egípcio não foram seguidos e em dado momento os policiais que deveriam permanecer no estádio simplesmente sumiram, e ao passo que os portões ao lado da torcida do Al Ahly permanecerem fechados, impedindo a fuga dos torcedores, portões foram abertos do outro lado do estádio por agentes de segurança para permitir a entrada de provocadores.
Parte da população de Port Said colaborou no salvamento das vítimas do massacre, usando mesmo seus carros pessoais para levar feridos a hospitais e doando sangue e acusando a SCAF de ter arquitetado o massacre. Sobreviventes denunciaram ter ouvido dos atacantes que estes batiam para lavar a honra da SCAF e para dar uma lição aos que se revoltam contra o regime. Para o ativista brasileiro Sauda, trata-se de uma “punição coletiva” inequívoca.
Em sua página oficial no Facebook, os Águias Verdes, torcida Ultra do Al Masry, declararam ser comprometidos com o apoio pacífico ao seu time e que fez o possível para prevenir a infiltração de provocadores em suas fileiras. A torcida denunciou, porém, terem sofrido a aproximação de provocadores antes do jogo com a intenção de promover a violência e mesmo sequestrar jogadores do Al Ahly. Os Ultras do Al MAsry denunciaram também que algumas pessoas chegaram a ameaçar vendedores e outros torcedores para conseguir ingressos para a partida.
A torcida do Al Masry declarou que “nosso grupo não tem nada a ver com o que aconteceu. Iremos suspender nossas atividades em respeito aos que morreram pelo Egito” e também prometeram participar dos protestos contra o regime ao lado das demais torcidas Ultra organizadas.
Dezenas de pessoas foram asfixiadas, pisoteadas ou mesmo espancadas até a morte, no campo e nas arquibancadas. Outros acabaram, apavorados, pulando das arquibancadas e morrendo em consequência. Os jogadores do Al-Ahly foram forçados a correr e se esconder nos vestiários, onde ao menos um torcedor morreu enquanto tentava desesperadamente escapar da violência.
O campeonato egípcio foi suspenso, algo que, segundo muitos egípcios, deveria ter sido feito há tempos, pois não há condições de segurança no país para evitar tragédias como as de Port Said que, a bem da verdade, pode ter sido minuciosamente planejada. O prefeito de Port Said renunciou e ao menos dois chefes de polícia foram presos, além da cúpula do futebol do país ter sido destituída, no que, para muitos, não passa de uma cortina de fumaça frente ao massacre arquitetado pelo governo que agora encobre seus rastros.
Casos semelhantes
Casos de violência no esporte são comuns. Torcidas adversárias se degladiam e se degladiaram em diversos países por razões políticas e existe clara tensão entre torcidas pelo mundo. O Real Madrid – em especial sua torcida de cunho fascista Ultra Sur - vive em constante tensão com torcedores do Herri Norte do Athletic de Bilbao e com torcedores do Barcelona, ambos times representando minorias étnicas e nacionalistas da Espanha.
Honduras e El Salvador já sustentaram batalhas violentas no futebol em 1969, prenúncio de uma guerra que vitimou ambos os países na chamada “Guerra do Futebol” que durou apenas quatro dias (14 a 18 de julho de 1969) e deixou quase 2 mil mortos.
Em 1990, as torcidas do Dínamo Zagreb e Estrela Vermelha de Belgrado acabaram em violento conflito, denunciando o conflito que teria início fora dos campos no ano seguinte, quando da separação da Croácia e Eslovênia da Iugoslávia.
Na Inglaterra, é comum a violência dos chamados Hooligans, ao passo que Celtic (católico) e Rangers (protestante), da Escócia, costumam se enfrentar por razões religiosas.
Por outro lado, o futebol também é palco de conciliações, de jogos que celebram a paz e mesmo jogos que celebram a vontade de nações de ganharem autonomia, como desafio a países maiores. A seleção Basca e a seleção Catalã, não reconhecidas pela Fifa, mas que anualmente realizam jogos para garantir a visibilidade de suas causas, ou a seleção do Tibet, que joga em desafio ao domínio chinês.
Mas a violência vista no Egito não foi religiosa e tampouco é reflexo de animosidades e diferenças insuperáveis entre duas torcidas, mas, como denunciam ativistas, jornalistas e especialistas, de um acerto de contas entre um regime militar e manifestantes pró-democracia.
Três jogadores do Al Ahly (Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat e Emad Moteab), chocados com os acontecimentos, decidiram se aposentar.
E a quem interessar possa, o resultado do jogo foi 3 a 1 para o Al-Masry.
domingo, 25 de março de 2012
Com Chico Anysio o Fascismo não sorria
25/3/2012 13:51,
Por Gilson Caroni Filho - do Rio de Janeiro
Chico Anysio criava personagens obstinadamente
A irreverência no trato com autoridades e seu refinado senso de
resistência política o levaram a um intenso processo de criação, como se
não quisesse perder um só detalhe do que estivesse à sua volta.
Operando com similaridades e antíteses, captou, com sua lente fina, as
luzes e o dia-a-dia do povo brasileiro, dos oligarcas aos estratos
populares que não se curvam ao desencanto e à decepção. Do rádio à
televisão, Chico Anysio foi um perito em extrair de múltiplos detalhes
da nossa formação cultural significados precisos, dissolvendo mitos e
máscaras com o ácido sulfúrico da piada certeira e do sarcasmo.
Como ninguém, ele soube fazer isso com ternura, estranha ternura onde
o lado amargo da vida é plenamente resgatado pelo humor atordoante. Há
quem diga que, como os poetas, os humoristas habitam um mundo em
decomposição e decadência, mas o fazem de forma visceral, com arte feita
do mais puro aço da reflexão e da lucidez crítica.
Dotado de profunda consciência social, o cearense de Maranguape tem
uma face pouco conhecida, que vai bem além do talentoso humorista, autor
e compositor: a de um resistente que não se curvou às tentativas de
cooptação dos setores golpistas aglutinados, nos anos 1960, na rede de
propaganda geral e doutrinação do Instituto de Pesquisa e Estudos
Sociais (IPES).
Conforme nos revela René Armand Dreifuss (1981: 248), “a elite
orgânica se aproximou de inúmeros produtores, atores e diretores famosos
de televisão, tais como Gilson Arruda e Batista do Amaral. Favorecia o
uso de programas cômicos, quando possível. Rui Gomes de Almeida
observava que uma piada contra um político provocaria um “dano enorme”.
Negava, ao contrário, o apoio aos atores que não cooperassem ou agissem
contra os programas, as linhas de raciocínio e as pessoas que o IPES
patrocinava. Tal foi o caso do humorista Chico Anysio, sagaz observador
da realidade social”. [1]
Na melhor tradição do humor de combate, ainda que sem engajamento
explícito, Chico não renegou princípios. Entendeu corretamente e cumpriu
com competência a melhor missão do humor: a de fiscal mordaz e crítico
visceral das estruturas do poder. Na galeria de mais de duzentos
personagens, há lugar de destaque para a velha oligarquia e
parlamentares com um profundo sentimento antipopular. Tudo operado com
destreza e rara sensibilidade.
Na ausência de herdeiros, o panorama, após sua morte, é desolador.
Quadros do Instituto Millennium elegem o ódio de classe, a homofobia e a
descriminação de gênero como mote para piadas grosseiras. Programas
como Casseta & Planeta e CQC parecem restabelecer uma velha sina: no
Brasil, homens que tiveram voos de águia ou condor acabam em incursões
galináceas, saltando direto para o poleiro. Enquanto outros, ainda
jovens, antecipam a hora do perjuro.
Vai-se a multiplicidade que transforma. Fica a vala comum do
transformismo. Não esperem perspicácia, iconoclastia irônica e
imaginativa. O que toma a cena como “humor político” nada mais é do que o
fascismo que lhe sorri.
Nota [1] DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Ação
Política, Poder e Golpe de Classe, Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro,
1981.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Correio do Brasil e do Jornal do Brasil.
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