segunda-feira, 29 de outubro de 2012

By Latuff


A valorização da virgindade

 

Segundo o psicologista Paul Bloom, nascido em 1963, e autor do livro How Pleasure Works, o termo virgindade aparece, nada menos, do que setecentas vezes, no Antigo Testamento, e ocupa lugar ainda mais central no Cristianismo, com o suposto nascimento virginal de Jesus.
Não cabendo ao cronista discutir assuntos ligados ao transcendente, ressalto um fato que a mídia destaca hoje: o leilão terminou e o lance vencedor atingiu 780 mil dólares, pelo direito à primeira noite com a catarinense Catarina Migliorin (foto)i. Como se trata de psicoginecologia, eu tenho todo o direito de dar a minha opinião. A fêmea humana deixou de anunciar o seu período fértil, como o faz a maior parte das primatas, ficando muito mais difícil, para o macho, ter a certeza de que o filho que ele criará é, mesmo, seu.

Uma maneira utilizada para aumentar as chances de as crianças serem legítimas era copular, preferencialmente, com mulheres virgens. Antes, porém, de maldizer o processo que levou a fêmea humana a esconder a ovulação, gerando milênios de opressão, é bom lembrar que a ocultação do estro resultou no sexo recreacional, e na formação de relações duradouras, entre homens e mulheres.

Se esconder o cio era válido no Pleistoceno (época geológica que começou há cerca de um milhão e setecentos e cinquenta mil anos, e terminou, aproximadamente, há dez mil anos), não faz mais nenhum sentido, no mundo moderno, em que a mulher pode controlar sua fertilidade, e existem exames de DNA à disposição dos homens mais desconfiados, dar tanto valor àquela pequena membrana.

Antes de prosseguir seria bom relembrar o que dizem sobre o cio (o período de fertilidade). Ele é um estado de receptividade sexual extrema, pelo qual passam as fêmeas de muitos mamíferos, tais como alguns primatas e morcegos, com exceção das mulheres. O período varia de sete a quinze dias, porém, em alguns casos, pode se estender um pouco mais, ou um pouco menos. No caso das primatas, por exemplo, o cio ocorre duas vezes por ano, ou seja, de seis em seis meses, estando elas ativas para o ato sexual, apenas, naquele período. Em relação às mulheres, por sua vez, a atividade sexual pode ocorrer em qualquer ocasião do ciclo.

Confesso que me afligem várias perquirições, tais como esta, ensinada por minha avó. Por que nós comemos mais ovos de galinhas do que de patas? Justamente, pelo fato de que as primeiras sabem fazer propaganda (um grande estardalhaço), do seu produto, enquanto que as segundas põem seus ovos sem barulho.

Em pleno século XXI, algumas culturas continuam valorizando a virgindade como um objeto precioso, sagrado, sendo preciso ser guardado a “sete chaves”. E os machões, face à camuflagem do cio escondido, oculto, sem cheiro, da qual as mulheres são dotadas, pagam um alto preço para passarem, com elas, a primeira noite. Neste sentido, acredito que a jovem catarinense está certíssima! Ela vai ganhar um bom dinheiro, para entregar uma simples abstração, que a maioria das adolescentes oferece, gratuitamente, aos seus namorados, e, as demais mulheres, aos seus amados.

Se há algo chocante nessa estória é o valor que nós, homens, ainda atribuímos à virgindade, como se estivéssemos no período Pleistoceno. Não há dúvida alguma: hoje, o conceito de virgindade oscila entre uma relíquia mental da pré-história e, em sociedades conservadoras, uma forma desumana de manipular e tiranizar a mulher.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Sobre as quengas


(...)João Pessoa está em 2º lugar no ranking nacional de Assassinatos de mulheres. A violência contra a mulher em João Pessoa é uma dura realidade a ser encarada, para assim talvez ser minimamente resolvida. Lembrem-se, que seremos guardas municipais desta cidade onde, repito, 2ª onde mais se matam mulheres em nosso país.
 
Agora sobre o termo quenga, que hoje é usado como sinônimo de mulher vil, prostituta, vadia, e que não merecem respeito. “as casas primitivas do interior de Alagoas em particular e de vasto território do Brasil eram feitas de taipa, onde se usa madeira nas paredes e barro. Pois bem. O barro era amassado com os pés e muito comumente em mutirão. Para dar ritmo ao trabalho e torná-lo mais agradável, o pessoal passou a usar a cuia do coco cortada ao meio para bater uma parte contra a outra, fazendo aquele barulhinho no ritmo. Essa cuia se chama quenga no Nordeste.
 
...escolas colocaram no currículo o estudo do folclore regional e em certo tempo os alunos levavam duas quengas para dançar o coco nas aulas de folclore. Como já diz a letra do Rei do Baião: "Toda menina quando enjoa da boneca é sinal que o amor..." Pois de vez em quando, alguma menina zarpava da aula e saia pelas ruas atrás dos seus namoricos mais ou menos apimentados. Vai daí que a vizinhança botava reparo e dizia: Lá vai a outra com suas quengas ladeira abaixo. Assim as quengas (cuias) do coco emprestaram o nome às que gostavam de gazetar aulas e dar seus pulinhos por ai.”¹
 
Substituo agora, quenga por vadia, visto que na atualidade e o tom pejorativo cabem a mesma “sujeita”. Após diversos casos de estupro, quando um policial convidado para orientar a comunidade sobre segurança disse que as mulheres poderiam evitar o estupro se “não se vestissem como vadias”, Infeliz comentário. Pois se ser vadia é escolher uma roupa, ou exercer a sexualidade livremente, frequentar esse ou aquele local, é motivar a violência contra a mulher, então todas são vadias e deixam de ser vítimas. Lembro, do caso de Queimadas-PB, onde cinco mulheres foram estupradas em uma festa, todas vadias, duas foram mortas. Fico pensando de forma geral, aqui no nordeste, um calor arretado, nós mulheres andando somente a luz do Sol e com burcas, para não ofender a moral e não incitar a violência.
 
O sistema, esse estado de coisas, já é tão cruel, nos educa com diversos preconceitos e intolerâncias. Talvez caiba a nós, estarmos atentos para não reproduzir essa mesma intolerância. Podemos também impedir, questionar e até nos negar a aceitar conceitos. Ter sensibilidade e respeito pelo ser humano, lutar por uma sociedade melhor e de pessoas melhores.
 
"Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade." (Bertrand Russel)
 
Alexandra Camilo

João Pessoa – PB, 10 de outubro de 2012

*Texto publicado em um grupo do Facebook de concursados da Guarda Municipal de João Pessoa

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Fidel Castro está agonizando

Bastou uma mensagem aos formandos do primeiro curso do Instituto de Ciências Médicas “Victoria de Girón”, para que o galinheiro da propaganda imperialista se alvoroçasse e as agências informativas se lançassem com infâmia voraz para as mentiras. Não só isso, mas em suas notícias adicionaram ao paciente as mais absurdas estupidezes.

Por Fidel Castro, no CubaDebate

Foto: Alex Castro

Fidel exibe o jornal O Gramma do dia 19 de outubro

O jornal ABC da Espanha publicou que um médico venezuelano radicado em ninguém sabe onde, revelou que Castro sofreu um derrame na artéria cerebral direita, “posso dizer que não voltaremos a vê-lo publicamente”. O suposto médico, que se é abandonaria primeiro seus próprios compatriotas, qualificou o estado de saúde de Castro como “muito perto do estado neurovegetal”.

Apesar de muitas pessoas no mundo serem enganados pelos meios de comunicação de massa — quase todos em mãos dos privilegiados e ricos, que publicam estupidezes — os povos acreditam cada vez menos neles. Ninguém gosta de ser enganado; até o mais incorrigível mentiroso espera que lhe digam a verdade. Todo mundo acreditou em abril de 1961, nas informações publicadas pelas agências de notícias, que os invasores mercenários de Girón e ou Baía dos Porcos, como quiserem chamar, estavam chegando a Habana, quando na realidade alguns deles tentavam chegar infrutiferamente em botes até os navios de guerra ianques que os escoltavam.

Os povos aprendem e a resistência cresce diante da crise capitalista que se repete cada vez com maior frequência; nenhuma mentira, repressão ou armas novas, poderão impedir a queda de um sistema de produção crescentemente desigual e injusto.

Há alguns dias, perto do 50º aniversario da “Crise de outubro”, as agências indicaram três culpáveis; Kennedy, um recém-chegado à liderança do império, Khrushchev y Castro. Cuba não tinha nada a ver com armas nucleares, nem com a matança desnecessária de Hiroshima e Nagasaki, perpetrada pelo presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman, que institui a tirania das armas nucleares. Cuba defendia seu direito à independência e à justiça social.

Quando aceitamos a ajuda soviética de armas, petróleo, alimentos e outros recursos, foi para nos defender dos planos ianques de invadir a nossa Pátria, submetida a uma suja e sangrenta guerra que este país capitalista nos impôs desde os primeiros meses, a custo de milhares de vidas e mutilados cubanos.

Quando Khrushchev propôs instalar mísseis de médio alcance semelhante aos que os Estados Unidos tinham na Turquia — ainda mais perto da URSS que Cuba dos Estados Unidos — como uma necessidade solidária, Cuba não vacilou em aceitar tal risco. Nossa conduta foi eticamente irrepreensível. Nunca pediremos desculpa a ninguém pelo que fizemos. O certo é que transcorreu meio século e ainda continuamos de cabeça erguida.

Gosto de escrever e escrevo; gosto de estudar e estudo. Há muitas tarefas na área dos conhecimentos. Nunca as ciências, por exemplo, avançaram em tão surpreendente velocidade.

Deixei de publicar Reflexões porque certamente não é meu papel ocupar as páginas da nossa imprensa, consagrada em outras tarefas em que o país precisa.

Aves de mau agouro! Não lembro sequer o que é uma dor de cabeça. Como evidência de quão mentirosos são, os presenteio com as fotos que acompanham este artigo.

Fidel Castro Ruz

domingo, 21 de outubro de 2012

By Latuff


PRESTE ATENÇÃO

Preste atenção nos danos
 

que são irreversíveis
 

Voce tem que viver com eles
 
e suas consequencias!
 
Preste atenção nos planos
 
que são concebíveis
 
Voce tem que lutar por eles
 
e suas abrangências!
 
Preste atenção nos anos
 
que correram, impassíveis
 
Voce tem que viver sem eles
 
Mas preserve suas essências!
 
Da poeta Arlete Guimarães

sábado, 20 de outubro de 2012

O povo brasileiro quer justiça (ou Carminha, Nina e a justiça na telinha)

 
Novela é um gênero literário. Nem tão extenso como um romance e nem tão curto quanto um conto. Porém pode ser mais densa e complexa que qualquer um dos dois outros gêneros. Há novelas de conteúdo com qualidade artística inestimável como Noites Brancas (Dostoiévski), O Alienista (Machado de Assis), A Metamorfose (Kafka) e talvez a primeira novela escrita, Decameron (Boccaccio). Quase sempre as novelas estão entre as obras mais vendidas dentre as obras dos autores, talvez por uma empatia com o público popular causada pela trama envolvente e em ritmo acelerado que aguça o pensamento em perspectiva das pessoas.
 
Com o advento do rádio, esse gênero se reciclou e assumiu a forma da radionovela (não que as novelas escritas tenham desaparecido, ainda existem muitas). Com a narração e entonação de voz diferente das personagens, além do fato da organização em capítulos diários (com a estratégia de deixar sempre suspense de um dia para o outro) esse gênero rapidamente atingiu as massas populares e consagrou autores como Oduvaldo Vianna (pai do Vianinha) e Gilberto Martins; além de atores e atrizes como Silvia Cardoso, Maria Ieda, Luiz Carlos e Magalhães e José Lucas (um xará bem mais famoso em seu tempo). Isso foi nas décadas de 30, 40 e 50 do século passado.
 
Nas décadas de 70 e 80 do século passado se consolidou no Brasil, servindo inclusive como artigo de exportação, uma nova flexão deste mesmo gênero: a telenovela. Com a popularização dos aparelhos televisivos, a natural migração, que já havia ocorrido quando da popularização dos rádios, aconteceu de forma rápida e rapidamente transformou-se em fenômeno nacional. Títulos como Pecado Capital e Selva de Pedra (Janete Clair), Roque Santeiro, O Bem Amado e Irmãos Coragem (Dias Gomes) e as mais recentes Vale Tudo, Anos Rebeldes e Insensato Coração (Gilberto Braga), foram sucessos nacionais atingindo níveis altíssimos de audiência e tendo seus capítulos finais discutidos na boca do povo.
 
Portanto, podemos concluir que a novela sempre foi um gênero popular, que contava fantasticamente ou realisticamente a vida da população e, muitas vezes com um nível de complexidade psicológica e qualidade artística acima da média. A qualidade artística e a complexidade psicológica são questionáveis, mas a popularidade da novela Avenida Brasil (João Emanuel Carneiro) é pública e notória. E por isso, hoje, no último capítulo dessa novela, os índices de audiência também foram enormes. E neste mesmo instante, nas redes sociais, uma parcela da juventude universitária, sobretudo, comenta pejorativamente o fato de milhões assistirem a novela e julgam todos como alienados, idiotas e estúpidos. Parece mais fácil do que tentar entender profundamente.
 
O tema central da novela é o fato de que a personagem da excelente atriz Adriana Esteves (Carminha) realizar e planejar diversas maldades e trambiques e ter em sua antagonista a boa atriz Débora Falabella (Nina) uma mocinha não menos maliciosa e cruel. Do meio para o fim da trama, a vilã vai se enredando cada vez mais no emaranhado de fatos que não se concatenam e é exatamente a expectativa de vê-la ser derrotada e pega com a “boca na butija” que fez com que a novela fosse crescendo em público até o final. 
Portanto, num país onde poderosos e grandes especuladores vivem impunemente do espólio de suas falcatruas, o sentimento de justiça da população passa a ser espelhado num final onde Carminha será condenada por assassinato e suas mentiras e traições acabam sendo condenadas juntamente. Junte-se a isso futebol, enredos amorosos e um povo trabalhador e feliz de um bairro do subúrbio e temos um imenso sucesso televisivo.
 
Até aí tudo bem. O problema é que, sendo um veículo de transmissão dos pensamentos da classe dominante de nosso país, a televisão através da telenovela passa exatamente essas mesmas ideias. Num momento onde a grande imprensa tenta criar um sentimento de euforia popular com o julgamento do mensalão e a condenação de corruptos e corruptores que culpados dos crimes que são acusados, não o são mais do que os mesmos corruptos que privatizaram o país na década de 90 do século passado e não são sequer investigados ou apontados como vilões pelos jornais nacionais, veículos que são dessa mesma classe dominante. Neste mesmo momento histórico, vem a fala da mãe do Tufão no capítulo final, ao saber da prisão da Carminha: “ainda dizem que não existe justiça nesse país!”. Será por acaso?
 
Outra ideia difícil de engolir, é o argumento implícito nos tapas que Carminha leva ao ser descoberta como vilã. Apanha do marido e de outras pessoas num clima de “justiça” satisfeita, ou seja, quando a mulher é culpada não tem problema apanhar. Esse argumento levado ao absurdo, pode ser aplicado a mulher que serve a comida fria, que não satisfaz o parceiro na cama, que não ‘cuida bem’ dos filhos e por aí vai.
 
Além do mais, os pobres da novela tem um poder aquisitivo muito maior do que a média da população pobre do Brasil, claramente com objetivo de alterar no inconsciente coletivo, a realidade econômica do povo. Porém, é óbvio que a cada vez que a crise econômica se aprofunda e o poder de compra dos trabalhadores diminui, fica mais desmascarada essa tática, e as pessoas já comentam na rua esse fato com desdém.
 
Não adianta nada se achar intelectualizado o suficiente para desprezar a grande massa que vê seus anseios respondidos por uma estória na telinha. Quem despreza o sentimento da maioria e se julga superior pelo simples fato de não assistir uma novela, só pode estar extremamente alienado da realidade pela qual passa a sociedade brasileira. Se o conjunto da sociedade faz uma determinada coisa é porque o sentimento geral, os anseios gerais estão de certa forma representados nessa determinada coisa. É óbvio que quem detém os meios de comunicação coloca suas ideias e preconceitos no meio desses anseios, no intuito de massifica-los, quase sempre com sucesso.
 
É necessário entender esses anseios e trabalhar por todos os meios, principalmente artisticamente, para desmistificar e desmascarar os argumentos mentirosos dessas estórias e chegar conjuntamente com o povo brasileiro a conclusão de que não existe justiça no Brasil exatamente porque essa classe dominante toma conta dos meios de comunicação, dos tribunais de justiça, dos meios de produção e de tudo o mais. Que só haverá justiça quando nós, o povo brasileiro, deixemos de ser (tele)espectadores e passemos a ser atores e atrizes da vida do país.